A Ilha das Caieiras é um antigo bairro localizado no lado Norte/Noroeste da Ilha de Vitória. A ocupação desta região seguiu à instalação de uma fábrica de cal de ostras e a rota de escoamento do café produzido nas serras de Santa Leopoldina, que usava os rios para desembocar em frente à ilha, antes de alcançar o Porto de Vitória.

As atividades da fábrica de cal (caieira) tiveram seu auge no início do século XX e persistiram por quase 40 anos. O trabalho consistia no cozimento das ostras em um grande forno por três dias seguidos, intercaladas com camadas de lenha e chapas de metal perfuradas para, em seguida, serem resfriadas com água, quebradas e peneiradas.

Em frente a Ilha das Caieiras se localiza um dos maiores manguezais urbanos do mundo, conhecido como Mangue do Lameirão, um berço de imensa biodiversidade que ocupa uma área de 891,83 hectares. O local é hoje uma Estação Ecológica instituída por lei municipal e abriga três espécies de mangue: Rhyzophora mangle (mangue vermelho), Languncularia racemosa (mangue branco) e Avicenia schaueriana (mangue preto ou siriuba). Possui também 5.052 m² de terra firme com solo de restinga, denominado Ilha do Apicum, onde predomina uma vegetação esclerófila litorânea e afloramentos rochosos com orquídeas, bromélias e outros remanescentes típicos da Mata Atlântica.

A abundância natural de peixes, crustáceos, moluscos, répteis, aves e pequenos mamíferos permitiu que as comunidades locais encontrassem na pesca e na coleta um importante meio de subsistência. 

As famílias desenvolveram a prática do desfio do siri inicialmente para consumo próprio, mas o produto passou a ser bastante procurado por consumidores e donos de restaurantes a partir da década de 70, com o crescimento e urbanização da região. 

Os homens se dedicam à pesca enquanto as mulheres se ocupam da preparação do crustáceo. Os siris limpos e fervidos em um caldeirão, são abertos com uma faca e a carne interna separada. As casas pequenas e com pouco espaço, fizeram com que o desfio fosse realizado, inicialmente, na porta das casas e nas calçadas. Isso favorecia a convivência social e o relacionamento entre os vizinhos, ao mesmo tempo que permitiam aos pais cuidarem das crianças enquanto brincavam nas ruas. Também ajudava a vender mais rapidamente o siri desfiado, quando não havia meios para conservá-lo, atraindo compradores entre os passantes do local.

A atividade acabou se tornando fonte de renda de boa parte da comunidade; as mulheres passaram a serem conhecidas como desfiadeiras de siri e a renda com a venda do siri permitiu criar os filhos e melhorar as casas.

Em 1999, 49 mulheres fundaram uma cooperativa para alavancar o trabalho e um restaurante para oferecer outros produtos tradicionais da culinária capixaba. Logo após a fundação, várias cooperadas se afastaram e o número inicial de participantes se reduziu drasticamente. 

Enquanto isso, obras de requalificação urbana e de incentivo ao turismo contribuíram para aumentar o interesse pela Ilha das Caieiras, como a construção do atracadouro (hoje um cartão postal da região) e da peixaria comunitária.

A grande beleza natural dos mangues e a oferta gastronômica atraem moradores de Vitória e turistas, que chegam em busca das famosas casquinhas de siri, moqueca e a Torta Capixaba, um prato rico e fabuloso, que conta com um festival inteiramente dedicado ao seu preparo.

No entanto, a urbanização desordenada e intensificação da pesca estão ameaçando a biodiversidade local e, com ela, as populações de siri, cada vez mais escassas. 

É preciso proteger esse produto e junto com ele o complexo ecossistema que favorece a vida no Mangue do Lameirão e na Ilha das Caieiras. Conhecer e respeitar os períodos de pesca e de defeso, valorizar o trabalho da comunidade local e do comércio realizado com preços justos é fundamental para que todos possam aproveitar deste delicioso alimento e deste magnífico local.

 

O siri desfiado é matéria prima para diversas preparações, entre elas, as mais típicas, a casquinha de siri, o bolinho de siri e a Torta Capixaba. A carne cozida e desfiada tem sabor delicado, paladar adocicado, sapidez e aroma de mar. È melhor misturar com temperos que não cubram o seu sabor e cai muito bem com coentro, tomate, cebola, pimenta do reino, azeite de urucum e outros.

Indicação e texto por Marcelo de Podestá
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