Slow Food Brasil

Cadastre o seu e-mail e receba novidades:

Está oficialmente aberta a época das farinhadas e a comemoração é em dose dupla; em maio, a Rede Catarinense fez o pedido de reconhecimento da atividade ao IPHAN

De maio a agosto, nos Engenhos de Santa Catarina, acontece o período das farinhadas, onde todos se reúnem, da colheita ao feitio da farinha, processo que começa no descascar a raiz e termina no forneamento do produto final. No início, cada família realizava sua própria farinhada, porém a articulação em rede possibilitou com que os engenhos reconhecessem que a tradição mantida há anos na região seguia firme em sua resistência. Hoje, já são 64 engenhos ativos na Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, nos municípios de Garopaba, Imbituba, Bombinhas, Florianópolis e Angelina, que comemoram as farinhadas juntamente com festas comunitárias e juninas.

Esse ano, há ainda mais motivos para comemorar. No mês de maio, a Rede fez o pedido de registro dos “Saberes e práticas tradicionais associadas aos Engenhos de Farinha de Santa Catarina” ao IPHAN. Além da Rede, a solicitação partiu do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), da Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI), da Associação dos Moradores de Santo Antônio de Lisboa (AMSAL), do Instituto Boi Mamão, de Bombinhas/SC, e do Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC. Para Cláudio Andrade, herdeiro do Engenho dos Andrade, o reconhecimento “é extremamente importante para a valorização desse patrimônio imaterial, desse saber-fazer que perpetua na mão desse pessoal mais antigo. São várias famílias que ainda vivem da produção de farinha, e que tem todo um conhecimento empírico da produção.”

Ao pensar o alimento como ferramenta de transformação social, Projeto Caracol atua em diferentes comunidades brasileiras a partir de práticas educativas

No começo do ano passado, como incitava do GT (Grupo de Trabalho) Slow Food Brasil Educação, surge o Projeto Caracol, que age em comunidades de baixa renda, de diferentes culturas e biomas brasileiros. Entre os objetivos, promover a segurança alimentar e nutricional e a reflexão sobre a cadeia do alimento, proteger o patrimônio cultural, incentivar a participação nas discussões sobre políticas públicas alimentares e aliar a produção local à geração de renda. Com o apoio da Misereor, o projeto atua, nesse momento, na Comunidade Chico Mendes (Florianópolis/SC), no Acampamento Paulo Botelho (Ribeirão Preto/SP) e na Enseada da Baleia (Cananeia/SP). Uma nova articulação vem sendo construída com uma comunidade quilombola de Eldorado/SP, também no Vale do Ribeira.

É a partir da realização de oficinas e da sistematização de metodologias para aplicar políticas públicas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) que os ativistas agem com as comunidades envolvidas, entendendo as necessidades locais e desenhando um planejamento de ações. Fortalecimento, autonomia e participação social em comunidades produtoras de alimentos é o lema do Caracol, um projeto piloto que tem a educação do gosto como um dos pilares para as práticas educativas. Segundo a historiadora Gabriella Pieroni, de Florianópolis, o conceito foi adaptado para a realidade do país. “Procuramos dar uma faceta mais política para a educação do gosto. São vários desafios que o contexto brasileiro nos apresentou e vimos que apenas as metodologias de treinamento dos sentidos, que vem de uma realidade europeia, não dava conta de fortalecer o tema”, diz Pieroni.

cartaterraeterritório-o9t0ews0xlga1d6nd47erizg0apikxewph5qaiaiyw.jpg
Bandeiras históricas de defesa do campo e do meio ambiente são reafirmadas em compromisso com a sociedade brasileira

Com uma metodologia baseada na ampla discussão de ideias e em um processo coletivo de escrita e reflexão, o Seminário Terra e Território: Diversidade e Lutas produziu um documentário histórico sobre a luta agrária e ambiental no Brasil, com denúncias dos retrocessos impostos pelo atual governo e sete compromissos das 50 organizações participantes.

A Carta Terra, Território, Diversidade e Lutas foi produzida por “movimentos populares e sindicais do campo, águas e florestas, trabalhadores e trabalhadoras rurais, pesquisadores, pesquisadoras, organizações não governamentais, ambientalistas, representantes de governos progressistas, lideranças partidárias e parlamentares”.

O encontro aconteceu entre os dias 6 e 8 de junho, em Guararema, interior de São Paulo, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), com discussões e análises sobre questões que envolvem os modelos de ocupação de terras e a defesa do meio ambiente, tanto em áreas urbanas como rurais. Como resultado, o seminário lança uma carta à sociedade, uma plataforma comum e um calendário de ações.

Semana Santa e Páscoa se aproximam e, com elas, cresce a busca por pescado em mercados do litoral ao interior do Brasil. No país de extensa costa, que abriga as maiores bacias hidrográficas do mundo, a procura pelas mesmas espécies esbarra em fortes questões ambientais. Nesse contexto, o Slow Food atua por meio do Slow Fish, que valoriza a pesca artesanal e o consumo de pescados. A batalha da rede segue seu foco pela utilização de peixes frescos, saborosos, locais, fora do período de defeso, livres de hormônios e antibióticos, provenientes de uma prática responsável, além de lutar por condições dignas de trabalho para o pescador e preço acessível para quem os consome.

Ao final da quaresma, todavia, a predileção pelo bacalhau é unânime. O comércio, então, se apropria da herança portuguesa de consumir o peixe europeu, tornando quase obrigatória a presença do ingrediente à mesa brasileira. “Incentivar o uso de outros pescados é, sem dúvida, uma questão importante de políticas públicas, que pode fazer com que este hábito cultural entenda outros peixes como possíveis para a época”, comenta o chef pantaneiro Paulo Machado. É nesse momento que o cozinheiro entra em ação, a fim de ofertar possibilidades ao comensal.

O chef Eudes Assis defende o peixe sazonal com unhas e dentes. “Temos que pensar em um consumo consciente, de peixe de bandeira verde. Será que tem robalo, linguado e pescada para todos? Ou tem sororoca e carapau, que inclusive vai começar a época bem agora?”, diz. Em Toque-Toque, São Sebastião, o chef aprendeu com a mãe a salgar peixe no varal. “Faço o peixe seco, que é uma técnica de conservação. Mas o buraco é mais embaixo, a legislação não deixa que esse peixe de varal seja comercializado”, afirma. 

No dia 27 de fevereiro, o movimento conhecido como Banquetaço mobilizou cerca de 1000 brasileiros, entre sociedade civil e representantes de movimentos, inclusive do Slow Food. Foram cerca de 20000 refeições produzidas voluntariamente com ingredientes de doações, servidas em 41 cidades em mais de 20 estados. A ação ainda contou com apresentações musicais e artísticas, oficinas, brincadeiras, sorteios, além de ser espaço de debates sobre o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o CONSEA.

Em 01 de janeiro, o governo federal publicou a Medida Provisória 870, que revogou inciso e artigo da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN/2006), levando à extinção do CONSEA, estruturado no Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o SISAN. Criado na década de 1990 para discutir políticas públicas alimentares, sendo um dos principais canais de comunicação da sociedade civil com o governo federal, uma vez que conta com dois terços de pessoas comuns e um terço de representantes governamentais.

Com o tema “Volta CONSEA”, o Banquetaço teve grande repercussão política e midiática. Para o articulador de rede do Núcleo Gestor da Associação Slow Food do Brasil, Glenn Makuta, “é uma ação muito importante para que as pessoas conheçam as conquistas ao longo dos anos de existência do CONSEA”. O espaço de formulação e controle social foi responsável, entre outras coisas, pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, pela institucionalização da compra de alimentos provenientes da agricultura familiar na Política Nacional de Alimentação Escolar e pela retirada do Brasil do Mapa da Fome, em 2014. No ano passado, o relatório da FAO declarou sobre a possibilidade de o Brasil voltar ao mapa nos próximos anos.

No último dia 22, quatro relatores da ONU enviaram carta ao Palácio do Planalto, em repúdio à extinção do conselho e aos possíveis retrocessos no direito à alimentação e à água, sobretudo entre indígenas e mais pobres. O governo respondeu que tais funções ficarão a cargo de outros setores, o que corroboraria para a falta de participação social, ferindo o exercício da democracia. Três dias antes, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão considerou inconstitucional o fim do CONSEA, à medida que desampara a garantia humana à nutrição adequada, conquistado pelo órgão na Constituição Federal.

Para o sociólogo Carlos Alberto Dória, um dos articuladores do Banquetaço, o movimento é uma manifestação clara da participação popular contra um ato que visa restringir o espaço político dessa mesma população. “Se o governo não pretende ouvir as reivindicações e clamores populares nos espaços institucionais, criados para isso na constituição de 1988, temos que procurar criar novos canais, como talvez um conselho alimentar sem a participação do governo”, questionou Dória.

Entre as principais pautas do CONSEA estavam: alimentação saudável, agricultura familiar, compras institucionais, merenda escolar, segurança alimentar, agrotóxicos (desde o início do ano, mais de 86 já foram liberados), transgênicos e rotulagem dos alimentos.

Conheça mais sobre Slow Food InternacionalFundação Slow Food para BiodiversidadeTerra MadreUniversidade das Ciências Gastronômicas

» SLOW FOOD BRASIL | Login »»

© 2013 Slow Food Brasil. Todos os direitos reservados aos autores das fotos e textos.
Não é permitido reproduzir o conteúdo deste site sem citar a fonte, link e o autor.
Design e desenvolvimento: DoDesign-s