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Em Florianópolis, um grupo de revolucionários mostra que existem alternativas viáveis, e transformam o lixo em ouro: composto orgânico, educação e cidadania.

Muito se fala sobre o lixo reciclável e seu impacto no meio-ambiente e na economia. Aconteceram campanhas intensas sobre reciclagem, realizadas tanto pelo poder público como pela sociedade civil. Associações de catadores vivem dos recursos provenientes da coleta e venda dos resíduos, e tem arte e artesanatos lindos feito com o material. Agora não é mais tão esquisito recusar a sacolinha plástica no comércio, muita gente separa o lixo, e se não estou enganada o Brasil é campeão em reciclagem. Ainda falta muito para resolver o problema, mas um caminho longo já foi trilhado.

Mas e o lixo orgânico? O que se faz com ele? Qual o seu destino? Nas cidades de modo geral, o lixo orgânico - juntamente com o material reciclável que não foi separado - é (ou deveria ser) recolhido por empresas contratadas pelas prefeituras, precisa ser tratado e devidamente descartado em aterros sanitários.

O descarte inadequado do lixo orgânico tem sérias conseqüências para os seres humanos e para o meio ambiente. O acúmulo do lixo orgânico e sua decomposição causam mau cheiro; proliferação de insetos, bactérias, fungos; aparecimento de ratos e baratas; produção de chorume que por sua vez pode contaminar o solo, a água e os lençóis freáticos.

Além disso, para a implantação de aterros sanitários é preciso utilizar áreas cada vez maiores, usualmente distantes dos centros urbanos. O impacto social, ambiental e econômico do uso desta área é enorme, pois tanto a paisagem quanto o uso da terra são comprometidos.

Em Florianópolis, um grupo de Revolucionários mostra que existem alternativas viáveis, e transformam o lixo em ouro: composto orgânico, educação e cidadania.

O projeto Agricultura Urbana e Revolução dos Baldinhos tem pouco mais de um ano e é coordenado pelo CEPAGRO. Teve apoio da ELETROSUL para a primeira etapa e recebeu o Prêmio de Meio Ambiente do CESE, que viabilizou o projeto até agora. O projeto conta ainda com o apoio de várias Creches e Escolas, além da Casa Chico Mendes e da ACAMOC (Associação Comunitária de Meio Ambiente) e ocorre nas comunidades Chico Mendes e Novo Horizonte.

Os Revolucionários são Rose Helena Rodrigues e Ana Carolina Conceição - funcionárias/bolsistas do projeto - e Maicon e John Pitter - assistentes e também bolsistas. Com exceção de John Pitter, os três estiveram em Brasília no II Terra Madre Brasil. Os quatro contam também com o apoio de estagiários do CEPAGRO.

De modo bem sucinto o projeto funciona assim: as famílias participantes receberam um pequeno recipiente (o baldinho) para separar o lixo orgânico. Algumas famílias receberam uma bombona e se tornaram PEVs (Pontos de Entrega Voluntária). As famílias que tem baldinhos levam o lixo para os PEVs, e duas vezes por semana os revolucionários passam com um carrinho puxado a mão para coletar as bombonas. Todo o material orgânico é então coletado pelo grupo e levado para a Escola Américo Dutra Machado, que cedeu parte do pátio como apoio ao projeto. Lá os resíduos são transformados em composto orgânico e em cerca de 3 meses está pronto para ser usado. As famílias retiram o composto e usam para plantar suas próprias ervas e verduras em casa, em espaços pequenos. Nas escolas e nas creches também tem horta usando o composto.

Hoje são cerca de 90 famílias participantes, e 30 PEVs. O grupo retira cerca de 6 toneladas de resíduo orgânico por mês das ruas. No primeiro ano do projeto o grupo reciclou 29,5 toneladas de resíduos orgânicos. Este material seria descartado de forma inadequada, trazendo sérias conseqüências para a saúde da comunidade, ou iria para aterros sanitários.

Tive a grande oportunidade e o prazer de acompanhar parte da jornada dos revolucionários. As 9h30 os encontrei na Casa Chico Mendes, tomando um café no intervalo entre a primeira e segunda coleta. Já haviam passado pela comunidade Chico Mendes e faltava a Novo Horizonte. Lá foram Lene, Carol e John Pitter na frente, e eu atrás tentando documentar o trabalho deles. Dj Maicon, Marcos (CEPAGRO) e Alexandre (estagiário CEPAGRO), ficaram na Escola já cuidando do primeiro lote.

Não é só na coleta e processamento dos resíduos que o projeto se concretiza. Durante a ronda Lene entrega ervas e conversa com a diretora da escola; Carol discute em uma das creches o desenvolvimento da horta; me levam para conhecer Maria, que tem uma incrível plantação entre a estrada e a rodovia; conversam com todos sobre a importância de separar o lixo; e os três se divertem sempre que podem, me presenteando com muitos sorrisos. Ao longo do caminho muita gente pede baldinhos, também querem participar do projeto. Mas o grupo não tem estrutura para ampliar o atendimento, precisam de apoio para isso.

De volta à escola, onde está a compostagem, o trabalho continua. Todo o resíduo é verificado (para descartar material reciclável que às vezes aparece), o material vai para a compostagem e as bombonas são lavadas, para serem devolvidas limpas aos PEVs. No final da aula, os alunos da escola dão uma passadinha para ver e aprender com o projeto. Lene e Carol aproveitam para conversar com os filhos pequenos.

As imagens deste dia foram colocadas em seqüência e mostram todas as etapas do processo. Em um dia normal o trabalho estaria quase terminado. John Pitter iria para a aula no período da tarde e os outros seguiriam com seus afazeres. Mas este dia era especial: John Pitter não tinha aula a tarde, e todos tinham uma reunião na Prefeitura de Florianópolis para tratar do apoio ao projeto.

Acabou o trabalho da manhã e em 30 minutos estavam todos arrumados para a reunião. No carro a trilha sonora foi o rap Bonde dos Baldinhos, composto por Maicon e Alan. Antes da reunião fomos almoçar todos juntos, no restaurante Vila Açor, do Chef Ubiratam Farias, que também faz parte da Rede Terra Madre. O restaurante fica no centro histórico de São José e tem uma linda horta mandala nos fundos, onde são cultivadas as ervas para o uso na cozinha.

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A Revolução dos Baldinhos esteve presente do II Terra Madre Brasil, e nos ensinou muito sobre cidadania e compostagem. Durante os 4 dias de evento ofereceram uma oficina teórico-prática e produziram 1 tonelada de composto. Nos fizeram pensar muito sobre a quantidade de lixo que produzimos e o destino que damos para isso tudo. Neide Rigo filmou a participação deles e o rap Bonde dos Baldinhos. Vai lá no Come-se que é ótimo.


Roberta Sá é Cientista de Alimentos, Presidente da Comissão Brasileira da Arca do Gosto , Líder do Convivium Slow Food Cerrado e mantém o site Alimento para Pensar .

 

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