Slow Food Brasil

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No início, eu questionava até que ponto um movimento que pregava o comer devagar poderia exercer influência sobre as pessoas de uma metrópole engolidora como a nossa. E, num pensamento mais egoísta, o que poderia me ensinar, já que faço minhas próprias compras, às vezes colho o que planto, amasso o meu pão, preparo minha comida e me sento à mesa todos os dias com família e amigos sem pressa? Pronto, eu já era "slow food".

Aos poucos, fui vendo que o movimento não era só isso e envolvia questões maiores. Tanto para mim, que tenho a sorte de trabalhar em casa, quanto para a maioria das pessoas, que leva uma vida frenética, com todo o tipo de excessos e restrições, ter uma atitude "slow food" pode significar muitos ganhos.

Um dos objetivos do movimento é que realmente comamos sem pressa alimentos saudáveis e que pensemos naquilo que estamos comendo.

Ninguém tem duas horas para almoçar ou para jantar todos os dias. Devemos começar com o que é possível. Se for para comer fora de casa, que seja em um lugar tranqüilo e, claro, nunca em pé. O que vai no prato deve ser algo que nos faça bem e que nos dê prazer. Nada de dietas malucas e de poderes miraculosos de alimentos da moda, que desrespeitam nossos hábitos, nossas tradições gastronômicas e nosso bom senso - nenhum shake ou sopinha rala deve substituir um bom prato com texturas, cores, aromas. A não ser que sejamos obrigados a tal.

A idéia é resgatar o prazer de comer. Uma porção de arroz, feijão, bife e salada verde servida quentinha certamente será mais acertada e dentro da filosofia do Slow food do que outra com feijoada, sushi, macarrão, tabule e salmãogrelhado juntos, escolhidos no self-service. E não podemos transformar esse momento num ato mecânico. Nossa atenção deve estar no ato de comer, sem interrupções de assuntos estressantes, televisão, celular ou gritarias de uma praça de alimentação.

Sempre que possível, é interessante sabermos mais sobre o caminho trilhado por essa comida até o nosso prato. Quem sabe, descobrimos um restaurante comprometido não só com a qualidade e o sabor mas também com a procedência dos ingredientes que usa em sua cozinha.

Toda a filosofia do movimento Slow Food pode ser resumida na tríade bom, limpo e justo. O alimento tem de ser de boa qualidade, gostoso e bem preparado, causar o menor impacto possível ao ambiente e resultar de produçãoe comércio justos.

O que o movimento prega não é apenas o comer devagar, mas a relação próxima e saudável com o alimento. Podemos ter pouco tempo e ainda assim fazer escolhas conscientes e comer de forma agradável uma comida melhor, que influencie toda a cadeia produtiva. Ou seja, colocamos, num mesmo prato, como perdão do trocadilho, o hedonismo e o altruísmo.

E, agora, que tal sairmos no próximo sábado para comprar hortaliças frescas e da estação, diretamente do produtor, para o almoço de domingo? Em São Paulo, por exemplo, há feiras de produtores orgânicos no parque da Água Branca (www.parqueaguabranca.sp.gov.br). Pode ser um bom começo.

Matéria publicada na Revista da Folha de SP (21/09/2008). 

 


Neide Rigo é co-líder do Convivium Slow Food São Paulo e autora do blog "Come-se".

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