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Os povos indígenas são os mais eficientes conservacionistas da biodiversidade mundial. Isso é particularmente verdadeiro nas reservas indígenas brasileiras, que detêm a maior parte das partes virgens da floresta amazônica. Quase um quinto de todos os animais e plantas da Amazônia vivem nesses territórios, os quais retêm 25,5% de todos os estoques de carbono no Brasil – e os povos originários dependem desses ecossistemas e em suas terras para sobreviverem.

A luta para proteger suas terras da grilagem, garimpo e extração ilegal na região é brutal e sangrenta. Nesse cenário, tem sido alegado que o governo Jair Bolsonaro está usando a pandemia como cortina de fumaça para continuar atividades ilegais de desmatamento e apropriação de terras.

Os estados do norte do Brasil, incluindo o Amazonas, foram os mais atingidos pela pandemia. Mais de 60 comunidades indígenas confirmaram casos de COVID-19 e a maioria deles foi registrada na região amazônica, de onde as pessoas só podem ir a hospitais de barco ou avião – a distância média entre aldeias indígenas e a unidade de terapia intensiva mais próxima (UTI), no Brasil, é de 315 quilômetros.

 

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Além disso, de acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) – que acompanha o número de casos e mortes entre os 900.000 povos indígenas do país – a taxa de mortalidade entre os povos indígenas é o dobro do que a taxa de mortalidade do restante da população brasileira. Eles alegam que “o coronavírus tirou proveito de anos de negligência pública”.

A população indígena estava sob grave ameaça antes mesmo da pandemia interromper o mundo. Grileiros, garimpeiros, caçadores e missionários religiosos ilegais operam na floresta amazônica há anos. Eles podem levar o vírus a populações remotas, aumentando o risco de genocídio de certos povos.

“O COVID-19 chegou às aldeias da minha região e os mais antigos e mais importantes estão caindo lentamente. Meu velho amigo Porake se foi e as pessoas estão partindo para outros planos. Eu fico pensando sobre a dor dessas pessoas. Eu moro com eles há muito tempo e não posso fazer nada para ajudá-los. 3 indígenas do primeiro contato já morreram por causa do COVID-19”, diz Amaury Camizão Juruna, do povo Juruna e membro ativo da rede Slow Food. Os idosos, especialmente nas sociedades indígenas, são essenciais para preservar o conhecimento tradicional, pois a maioria dos povos é marcada por tradições orais passadas por gerações e cruciais para sua sobrevivência cultural.

Desde o surto do coronavírus – que “mata um brasileiro por minuto” — as decisões do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sobre a pandemia têm sido constantemente questionadas. Um editorial do The Lancet afirma que o tratamento irresponsável da situação por Bolsonaro resultou em uma confusão absoluta em todo o Brasil, que, em 12 de junho de 2020, tinha cerca de 805.649 casos de COVID-19 confirmados, tornando-o um dos principais epicentros do Coronavírus, perdendo apenas para Estados Unidos globalmente. Estudos indicam que o número de mortes pode ultrapassar 125.000 em agosto de 2020.

A indiferença do presidente coloca em risco a vida de vários brasileiros, especialmente os que vivem em áreas remotas. Aproximadamente 13 milhões de brasileiros moram nas favelas, onde as recomendações de saneamento e higiene, bem como o distanciamento social, são quase impossíveis de serem mantidas. Indígenas que se mudaram para áreas urbanas para estudar ou em busca de trabalho muitas vezes são forçados a viver em condições precárias, com pouco ou nenhum acesso a serviços públicos. Enquanto isso, aqueles que vivem em regiões distantes não têm saneamento básico ou serviços de saúde.

“Não recebemos nenhum apoio ou assistência do governo regional ou federal. O município está fazendo a sua parte, mas o governo Bolsonaro nos excluiu totalmente. Vemos nossos parentes sofrendo e enfrentando dificuldades. Não temos mantimentos, alimentos ou outros produtos básicos para sobreviver. Estamos pedindo ajuda, mas ninguém se apresentou para nos ajudar ”, diz Sérgio Garcia Wará, do Sateré-Mawé – um povo indígenas que vive no estado do Amazonas – e membro das Fortalezas Slow Food Waraná Sateré-Mawé e  Mel de Abelha Canudo Sateré-Mawé.

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A comunidade Sateré-Mawé, como vários outros povos indígenas, tem lutado pela sobrevivência cultural e física e por promover sua soberania alimentar. A segurança alimentar, para esses povos, está profundamente ligada à garantia de seus territórios, que foram usurpados para fins industriais e mudaram irreparavelmente seus sistemas alimentares e modos de vida.

“Povos indígenas que dependem da agricultura para sua subsistência e estão envolvidos no programa de compras públicas que abastece cantinas escolares do município de Vitória do Xingu, onde o valor do contrato chega a 120 mil reais, antes do COVID-19 já enfrentavam vários desafios, porque o contrato não inclui custos logísticos para a distribuição de alimentos, o que acaba sendo muito caro. Com a não conclusão do contrato de compras públicas, devido ao COVID-19, ficamos com grandes quantidades de frutas, vegetais e produtos artesanais – produzidos de maneira limpa e justa, respeitando a maneira tradicional de trabalhar do povo Juruna. Nossas atividades agrícolas são sempre realizadas com o maior respeito à floresta e seus habitantes, juntamente com membros e parceiros da comunidade”, disse Amaury Camizão Juruna, que vive na área afetada pela barragem de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará.

Os números crescentes os deixaram sem opção a não ser se colocar em quarentena. No entanto, para os jurunas, “o isolamento é muito difícil, especialmente porque atuamos como um coletivo. Comemos, trabalhamos, caminhamos juntos. Além disso, não poder sair de casa ou ir para o campo significa não ter comida aqui ”, diz Amaury, que, juntamente com outros membros de sua aldeia e com apoio do Slow Food, arrecadou doações para fornecer cestas de alimentos e refeições prontas para as famílias de sua aldeia. “Em nome da comunidade, agradeço a todas as pessoas que se apresentaram e fizeram doações, mas precisamos de mais contribuições para que o trabalho não pare”, acrescenta.

 A situação dos povos indígenas do Brasil é agravada pela grilagem e extração em terras indígenas, que só aumentou desde que a pandemia atingiu o país. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na floresta tropical brasileira aumentou quase 64% em abril deste ano em comparação a um ano atrás. No mês passado, 405,6 quilômetros quadrados de floresta tropical foram destruídos. Área que equivaleria a 57 Maracanãs.

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Em abril, a FUNAI – agência de assuntos indígenas do Brasil – aprovou uma lei que impede que terras indígenas que aguardam demarcação oficial sejam rotuladas como “indígenas” no registro de terras. A nova lei, argumentam grupos ambientalistas, permite que aqueles que ocupam ilegalmente terras indígenas reivindiquem que a terra não é indígena. Além disso, a controversa Medida Provisória (MP) 910, decretada pela primeira vez por Bolsonaro em dezembro de 2019, é agora o projeto de lei PL2633. Ele permite que aqueles que desmataram ilegalmente e ocuparam terras federais protegidas antes de dezembro de 2018 comprem a propriedade a preços reduzidos.

 A hostilidade de Bolsonaro em relação aos povos indígenas, que ele afirma governar, e a completa impunidade com a qual seu governo funciona, colocou em risco a própria sobrevivência desses povos. Suas decisões e as atrocidades em curso sobre os povos indígenas do Brasil terão implicações profundas, pois essas comunidades dependem inteiramente de suas terras para sua subsistência, bem como para seu bem-estar físico e espiritual. A luta para proteger suas terras e os ecossistemas dos quais dependem só piorou com a pandemia. Como movimento Slow Food e como humanos, devemos apoiar e estar ao lado dos povos indígenas na causa da proteção de suas terras, tradições e direitos. Precisamos expandir e ampliar suas vozes para que a humanidade entenda que o futuro do nosso planeta depende dessa luta.

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