por Fernando Angeoletto - cepagro.org.br / engenhosdefarinha.wordpress.com
Numa parceria entre o
Cepagro, Ponto de Cultura e Convivium dos Engenhos da Farinha,
Convivium Sabor Selvagem, Slow Fish Santa Catarina e Juventude Slow
Food, o ato de amor à Terra Madre deu-se no chão batido e entre as
paredes carregadas de história do Engenho dos Andrade, que preserva a
alma açoriana simbolizada na produção artesanal de farinha.
Ali
reuniram-se famílias de Engenhos, pescadores, extrativistas,
agricultores familiares, pesquisadores, líderes comunitários, ativistas
culturais e ao menos uma centena de convidados, numa convivência de um
dia todo, tendo como ápice um almoço feito exclusivamente com produtos
regionais e de procedência justa e limpa.
A abundância da mãe
terra, de mãos dadas com a generosidade do nosso vasto mar,
transformou-se pelas mãos dos chefs nas seguintes obras-primas: chutney
de polpa de juçara com melado; palmito pupunha assado na brasa; ostras
in natura; espaguete de pupunha com berbigão na casca; berbigão
ensopadinho com chuchu; peixe frito; aipim cozido; lingüiça frita;
feijão vermelho; saladas verdes. Pra beber, suco de morango, caldo de
cana e vinhos das uvas Goethe. De sobremesa, creme de polpa de juçara
com calda de morango. No café da tarde mais delícias: bijú, bijajica,
cuscuz, pães caseiros, geleias.
Convidado ilustre no Seminário do Ponto de Cultura
Pela manhã foi realizado o Seminário do Ponto de Cultura e do Convivium
Engenhos de Farinha. Com a presença dos representantes da rede dos
Engenhos, que vieram de Angelina, Garopaba, Paulo Lopes e Palhoça,
foram repassadas as atividades feitas na primeira etapa do Ponto de
Cultura, e um esboço da programação para o próximo ano.
Será o
período de maior movimentação do projeto: estão previstas 27 oficinas
que acontecerão dentro dos próprios Engenhos, de modo a valorizar e
fortalecer a cultura das famílias proprietárias e das comunidades onde
estão inseridos. Os temas sugeridos vão de artesanatos típicos (cestas,
balaios, tipitis, rendas, esteiras, canoas com galhos de garapuvus) à
prática da culinária tradicional, passando por história e cultura das
populações açorianas, preparação para o turismo, feitio de açúcar e etc.
O convidado ilustre para o Seminário do Ponto de Cultura foi o
antropólogo Gelci Coelho, o Peninha, uma autoridade em cultura
açoriana, ex-diretor do Museu Universitário (UFSC) e profundo
conhecedor da obra de Franklin Cascaes. Peninha recorda que o momento
histórico crucial da ameaça à existência dos Engenhos, que passaram das
centenas no litoral catarinense aos poucos que existem hoje, ocorreu em
1976. “Neste ano, houve um adendo à legislação sanitária que exigia
paredes com azulejos nos espaços de produção de alimentos”, lembra ele.
“Teve dono de Engenho que desmanchou tudo e tacou fogo, outros venderam
muito barato. Eu e o Franklin Cascaes vimos peças de Engenho pintadas
de branco decorando bares de São Paulo, ele ficava muito revoltado”.
Peninha acha fundamental o fortalecimento em Rede dos Engenhos que
ainda existem, atuando na reconstrução da identidade social, econômica
e social desses ambientes.
As comunidades do alimento e o Arreda-Boi
Durante a tarde, os chefs e as comunidades dos alimentos deram seus
recados ao público. Leandro Carmo (ESALQ/USP), representando a palmeira
juçara da Mata Atlântica, trouxe à luz as benesses nutricionais e
econômicas dos frutos desta planta, e sobretudo o bem social que ela
tem feito às comunidades extrativistas do sul de SP.
O jovem
Fabrício, em nome da RESEX Marinha da Costeira do Pirajubaé, alertou
para a exploração sofrida pelos extrativistas: chegam a vender um balde
de 18kg de berbigão com casa por R$ 4, na sujeição a atravessadores que
enviam a São Paulo e na falta de um mercado local mais promissor.
“Nosso futuro é a criação de infraestrutura para beneficiamento. Para
isso precisamos da ajuda de vários atores, incluindo o Slow Food e o
poder público”, declarou o jovem. Houve também falas do Cepagro
representando os agricultores ecologistas do litoral catarinense, o
Ponto de Cultura e a compostagem da Revolução dos Baldinhos, do
movimento Slow Fish pelos pescadores artesanais, da Palma Sul expondo o
cultivo sustentável do palmito de pupunha, entre outros.
Na
sequência os convidados divertiram-se com o Arreda Boi, do Ponto de
Cultura parceiro do evento, que apresentou um boi-de-mamão com a
alegria e o colorido da criançada atuante. Destaque para a presença
sempre animada e espirituosa do Nado, padrinho do grupo, e do caríssimo
convidado Sr. Chico, hoje aos 86 anos, dono do inesquecível bar rústico
à beira-mar no Campeche que foi derrubado este ano pelo delírio da
política de zoneamento em Florianópolis, que alimenta os tubarões e
atropela de patrola os peixes pequenos.
O evento foi encerrado
com um delicioso café típico de Engenho, selando um dia intenso de
alegria e respeito à Mãe Terra, de vivências e de prazer, de harmonia e
de consciência.
Agradecimentos especiais aos doadores e fornecedores dos alimentos servidos no dia:
Zezinho e Rose, Dona Rosa e João Nascimento, Osmar e Dionisia Marcelino, as irmãs Inácia, Wilma e Maura, Celso e Catarina
– agricultores agroecológicos da Rede Ecovida e proprietários de
Engenhos artesanais de farinha em Garopaba, Paulo Lopes, Palhoça e
Angelina (morango, alface americana, repolho, beijú, bijajica, cuscuz,
feijão, lingüiça, aipim, melado, geleias, pães caseiros e farinha de
mandioca)
Fabrício e Aristides da RESEX Costeira do Pirajubaé – berbigão e peixes
Adega da Quinta - Vinhos e azeites - Florianópolis;
PROGOETHE, Vinícola Del Nonno e Vinícola Mazzon - Vinhos de Urussanga;
Palma Sul - pupunha fresco - Joinville;
Fazenda Moluskus - Ostras - Palhoça;
AGRECO – molho orgânico de tomate - Santa Rosa de Lima;
Xisto – cultivos orgânicos - Florianópolis;
Bom Bocado Patisserie - Blumenau;
E aos Chefs, Cozinheiros e estudantes de Gastronomia responsáveis pelo toque da alquimia regional no cardápio:
Ana Luiza Mette,
Bernardo Simões,
Fabiano Gregório,
Jaderson Andrade,
Júlia Michaelsen,
Philipe Bellettinni
e Ubiratan Farias.
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