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039.jpgO grupo indígena denominado Mbyá-Guarani possui suas aldeias nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Tradicionalmente, este grupo indígena obtém seus alimentos a partir da caça, da pesca, da coleta e da horticultura. Os homens caçam, pescam, coletam e abrem clareiras na mata, onde são feitas as roças. As mulheres semeiam e colhem os produtos da roça, processam, estocam e preparam todos os alimentos consumidos pelos Mbyá-Guarani. Homens e mulheres, tradicionalmente, colaboram nas tarefas que constituem o sistema culinário Mbyá-Guarani.

Na atualidade, devido à pouca terra demarcada para o grupo e suas más condições ambientais, as tarefas do sistema culinário Mbyá-Guarani sofreram algumas alterações. Os homens, impedidos - pela escassez de rios e matas - de caçar, coletar e pescar, passam a contribuir mais no cultivo das roças. Com isso, homens e mulheres vêm dedicando-se a outras atividades, como a produção e comércio de artesanato, para obter recursos monetários e comprar alimentos em substituição aos que antes eram obtidos no meio ambiente. Mas, mesmo diante do novo quadro, homens e mulheres continuam dividindo as tarefas que proporcionam seus alimentos, com destaque para as mulheres, que são responsáveis por seu preparo.

Podemos, então, afirmar que mulheres e homens são responsáveis pela sobrevivência física dos membros do grupo, no que tange à obtenção de nutrientes. Contudo, o ato de comer vai muito além do que a simples - porém necessária - ingestão de nutrientes. A comida simboliza. Ela, além dos nossos corpos, alimenta também nossos imaginários. Ao comer, incorporamos tanto aspectos nutricionais quanto simbólicos dos alimentos que ingerimos (FISCHLER, 1995). E, no que se refere aos Mbyá-Guarani, é no campo do simbólico que mais se destaca a participação das mulheres nas tarefas de seu sistema culinário.

025.jpgOcorre que as mulheres, ao preparar os alimentos do "jeito Guarani" de cozinhar, estabelecem as fronteiras étnicas de seu grupo frente aos demais. Conforme apontado por Barth (1988), os grupos étnicos destacam alguns elementos de seu sistema cultural para contrastar com os elementos culturais de outros grupos. Esses elementos, chamados de sinais diacríticos, são definidores da identidade étnica. A comida é muito comumente acionada como um sinal diacrítico: ela pontua a identidade étnica. Entre os Mbyá-Guarani, a comida define quem é ou não Mbyá-Guarani. Ser Mbyá-Guarani é ingerir a comida que foi preparada do "jeito Mbyá-Guarani". E quem prepara as comidas são as mulheres.

Além de diferenciarem-se etnicamente pela comida, os Mbyá-Guarani utilizam a alimentação para diferenciar-se dos demais seres que habitam seu cosmos. A cosmologia Mbyá-Guarani compreende três diferentes domínios: natureza, sociedade e sobrenatureza. Eles são habitados, respectivamente, por animais, seres humanos e divindades. Porém, as fronteiras entre os diferentes domínios não são estanques, pois homens, deuses e animais convivem em espaços comuns e em constante interação. As fronteiras entre estes domínios são muito tênues, podendo ser facilmente transpostas (TEMPASS, 2008). Os Mbyá-Guarani encontram-se no domínio central, na sociedade, entre os animais e os deuses. Podem tanto transformar-se em animais quanto em deuses. Uma série de regras controla a transposição destes domínios e dentre elas destacam-se as regras alimentares. Caso estas regras não sejam cumpridas, os Mbyá-Guarani correm o risco de adentrarem o domínio da natureza, tornando-se animais. Por outro lado, respeitando as regras, eles habilitam-se ao domínio da sobrenatureza, tornando-se deuses.

081.jpgÑanderú, principal divindade dos Mbyá-Guarani, ao criar este mundo, criou uma série de plantas e animais exclusivamente para servirem de alimento aos Mbyá-Guarani. Além disso, essa divindade estabeleceu regras precisas sobre como esses alimentos devem ser obtidos pelos Mbyá-Guarani. Desta forma, os Mbyá-Guarani realizam uma série de ritos para a caça, a pesca, a coleta e a horticultura, conforme ensinado por Ñanderú. As sementes das plantas das roças, por exemplo, são batizadas na casa de rezas antes do plantio, depois são semeadas conforme os preceitos cosmológicos (mosaicos de diversas plantas) e "rezadas" enquanto crescem. Não é preciso regar ou empregar adubos e defensivos agrícolas, basta rezar, que as plantas irão crescer. Ñanderú se encarrega do crescimento das plantas (TEMPASS, 2005).

As formas de preparar esses alimentos também foram definidas por Ñanderú. Entre os Mbyá-Guarani, a noção de "criação" precisa ser relativizada. Eles não criam nada, apenas reproduzem os modelos criados pelos deuses (TEMPASS, 2007). Assim, segundo os Mbyá-Guarani, há milênios as mulheres preparam os alimentos exatamente da forma que os deuses definiram. Os alimentos assim obtidos e preparados são considerados "perfeitos". São eles que tornam corpo e alma perfeitos. E somente com a perfeição do corpo é que se pode atingir o domínio da sobrenatureza e, desse modo, tornar-se também um deus. E, ao contrário, corpo e alma imperfeitos transformam-nos em animais.

A perfeição dos corpos e das almas Mbyá-Guarani estão diretamente relacionados com a concepção de saúde deste povo. Comer seus alimentos tradicionais significa ter saúde.

090.jpgPelo exposto, percebe-se que ser Mbyá-Guarani, sua identidade étnica, passa pelas atividades femininas. Mais que isso, a saúde e o destino dos indivíduos deste povo - a futura animalidade ou divindade - também são determinadas pelas atividades femininas, posto que as mulheres colaboram na obtenção dos alimentos e possuem exclusividade no seu preparo. Porém, apesar da importância de suas atividades, é justamente sobre as mulheres que recai a grande maioria das interdições alimentares pontuais mais rigorosas. Durante a iniciação, a menstruação, a gravidez e a amamentação, as possibilidades alimentares das mulheres são muito limitadas, por questões cosmológicas (TEMPASS, 2008). Esse ponto é relevante nas práticas alimentares dos Mbyá-Guarani porque eles organizam-se em núcleos de produção e consumo - o que equivale a um fogo onde são preparadas as refeições do núcleo - geralmente baseados em relações de parentesco. Todos os membros desse núcleo trabalham juntos, na roça ou na mata, para obter os alimentos que são consumidos por todos. Um núcleo pode ser formado por várias famílias nucleares, com várias casas, mas sempre há somente um fogo e uma roça, partilhados por todos os membros. O tamanho do núcleo é variável, pode haver apenas uma mulher, ou até dezenas de mulheres. Soma-se a isso o fato de que ter filhos é uma dádiva, para os Mbyá-Guarani. Quanto mais filhos, melhor. O número elevado de filhos é um orgulho para eles. A mulher Mbyá-Guarani mal acaba de amamentar um filho e já engravida novamente. Desta forma, sempre - ou quase sempre - haverá no núcleo de produção e consumo alguma mulher que necessite de maiores cuidados alimentares (restrições), que esteja sendo iniciada, menstruada, grávida ou amamentando.

Todavia, o poder culinário feminino entre os Mbyá-Guarani é forte, de tal maneira que suas restrições alimentares acabam sendo praticadas por todos os indivíduos do núcleo de produção e consumo. Elas preparam as comidas conforme as restrições que lhes recaem, só que não preparam uma comida diferenciada para os demais. Todos partilham de uma mesma comida. Entre os Mbyá-Guarani, cada um come o que os outros também podem comer. Desta forma, a dieta cotidiana dos Mbyá-Guarani, na maioria das vezes, além de preparada pelas mulheres, é também determinada pelas prescrições alimentares que recaem sobre elas.


REFERÊNCIAS

BARTH, Frederick. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART, Jocelyne (Org.). Teorias da etnicidade. São Paulo: Ed. Unesp, 1988.

FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995.

053.jpgTEMPASS, Mártin César. Orerémbiú: a relação entre as práticas alimentares e os seus significados com a identidade étnica e a cosmologia Mbyá-Guarani. 2005. 156 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

TEMPASS, Mártin César. O belo discreto: a estética alimentar Mbyá-Guarani. Revista Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 170-194, jul./dez. 2007.

TEMPASS, Mártin César. Comida e gênero entre os Mbyá-Guarani. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia, v. 19, n. 1, p. 287-309, jan./jul. 2008.


* Mártin César Tempass  é antropólogo, atualmente em doutoramento pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS)

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