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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

Documentario Quindim de PessachQuindim de Pessach foi produzido a partir de prêmio recebido na edição de 2009 do Etnodoc, projeto conduzido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e pelo Departamento de Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que buscou estimular a produção de documentários etnográficos sobre patrimônio cultural imaterial.
Pessach, ou “Páscoa Judaica”, marca a comemoração da libertação do povo de Israel da escravidão, no antigo Egito. O quindim, de origem portuguesa, hoje considerado bem brasileiro, foi introduzido na mesa de Pessach de uma das famílias entrevistadas no documentário por sua cozinheira, que percebeu que os ingredientes da receita não desrespeitam as prescrições alimentares que marcam o evento religioso.
Com delicadeza, o documentário mostra o encontro, por meio da culinária, da cultura judaica com a brasileira, apresentando a relação e a transmissão de conhecimentos entre matriarcas judias e cozinheiras brasileiras. O aprendizado, como mostrado, não se dá somente através das receitas, mas pela comunicação de tradições e costumes, festivos ou religiosos. O filme mostra as cozinheiras se apropriando dos costumes de seus patrões, ao mesmo tempo em que introduzem conhecimentos próprios a suas origens e trajetórias à cozinha judaica, participando também da transmissão de antigos saberes às novas gerações. Identifiquei-me incrivelmente com estas cozinheiras, pois minha história de vida é marcada por uma apropriação cultural a partir da culinária.

thelunchbox 1Situado em Mumbai, Lunchbox (2013) é um filme indiano dirigido por Ritesh Batra. São dois os personagens principais, que acabam se envolvendo em um romance platônico através de cartas, enviadas por meio de viandas, isso em um contexto em que, a cada dia, esposas costumam mandar, via entregadores, comida a seus maridos, que estão no trabalho.
Ila é uma esposa negligenciada em seu casamento, enquanto que Saajan Fernandes é um viúvo amargurado e prestes a aposentar-se. Em um ambiente de mudança tecnológica, é a partir de um erro no sistema de entrega de viandas que os caminhos dos dois se cruzam e que começam a relacionar-se.
Em uma tentativa de chamar atenção do marido, Ila lhe prepara um almoço especial. No entanto, ao retornar à casa, no final do dia, ele não faz qualquer comentário a respeito, levando-a a cogitar que a comida pudesse ter ido a destinatário errado. Para confirmar sua suspeita, no dia seguinte Ila manda uma carta junto com a vianda. Sr. Fernandes, que recebeu o almoço, responde apenas “hoje a comida estava muito salgada”... e assim o diálogo começa. Dessa forma, duas pessoas solitárias passam a comunicar-se e a envolver-se, a partir da alimentação. Sem que nunca tenham se visto e relacionando-se apenas através das cartas que acompanham as viandas, Ila capricha nas refeições para Saajan, chegando a cozinhar seu prato favorito, berinjelas recheadas. O filme retrata bem o simbolismo e o potencial comunicativo da comida nas relações em que vivemos, como parte de nossa cultura.

MandiocaEra um outubro frio, mas de muito sol. Eu estava ajudando Ivanir a vender seus biscoitos e pães durante a 7a Feira Estadual de Sementes Crioulas e Tecnologias Populares de Canguçu, evento grande que mobiliza quase todas as comunidades e organizações camponesas da região e que acontece a cada dois anos. Uma feira que possibilita a troca de mudas e sementes crioulas, além de criar espaços de sociabilidade entre conservadores e produtores de sementes.

Já era quase meio dia quando Gabriela chegou. Uma menina bem alta, mas que pelo modo de andar e rir confessava ainda ser uma criança. Ela estava agitada, preocupada, e só queria saber em que lugar ela colocaria suas mudas e suas mandiocas. Ivanir até que tentou me apresentar a filha, porém toda a atenção da menina estava voltada às mandiocas.

“Se a gente é o que come, quem não come nada some,
por isso ninguém enxerga essa gente que passa fome”.
(Victor Rodrigues)

Arnaldo Antunes ComidaQuais as necessidades humanas? De que temos fome? Se tomarmos como mote para essa discussão a música Comida, dos Titãs, podemos encontrar alguns eixos norteadores que ampliariam nossa visão da fome como um problema não apenas individual como também social, político, cultural, perpassando questões como cidadania, igualdade, desejo/prazer e outras necessidades humanas que ultrapassam as carências nutricionais ou desnutrição. Ainda que o acesso à comida fosse universal, ele não deveria ser homogeneizante, como satiriza a letra dos Titãs: “Bebida é água! Comida é pasto!”.
Em nosso país, a construção de conceitos como fome, desnutrição, insegurança alimentar têm um vasto histórico na formulação de políticas públicas, tornando-se emblemática a luta e combate à fome, defendida por grandes pesquisadores, instituições e governos, em diferentes perspectivas até os dias de hoje. Mas o pensamento coletivo sobre a fome, essa necessidade crônica de tantos, que expõe carências humanas diversas, medos e uma insegurança diária sobre não ter o que comer, ainda parece ser pouco escutado. Escuta que pressupõe um protagonismo nesse querer “não só comida”, mas autonomia no comer/alimentar-se, domínio de suas práticas alimentares e comensalidades, melhorias de qualidade de vida e cidadania.

Feira do Modelódromo do Ibirapuera BDesde seu início, a modernização da agricultura se espalhou pelo mundo levando a promessa de que, por meio do uso de agroquímicos, poderíamos produzir alimentos baratos e em quantidade suficiente para acabar com a fome do mundo. No entanto, essa promessa não levava em consideração a qualidade de alimentos ou tampouco a saúde de trabalhadores e consumidores. Considerava, menos ainda, os impactos sociais e ambientais.  

Porém, não demorou muito para que os efeitos colaterais desse modelo de produção viessem à tona. Ainda em 1962, quando a Revolução Verde recém chegava aos países do hemisfério sul, a bióloga Rachel Carson publicava o livro “Primavera Silenciosa”, relatando os impactos dos agrotóxicos ao meio natural. Na época, a descoberta foi polêmica e altamente questionada. Hoje em dia, a quantidade de pesquisas e evidências já não nos permite negar o impacto nocivo dos agrotóxicos, seja na produção ou no consumo.

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