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Editoras desta coluna: Renata Menasche Fabiana Thomé da Cruz

MandiocaEra um outubro frio, mas de muito sol. Eu estava ajudando Ivanir a vender seus biscoitos e pães durante a 7a Feira Estadual de Sementes Crioulas e Tecnologias Populares de Canguçu, evento grande que mobiliza quase todas as comunidades e organizações camponesas da região e que acontece a cada dois anos. Uma feira que possibilita a troca de mudas e sementes crioulas, além de criar espaços de sociabilidade entre conservadores e produtores de sementes.

Já era quase meio dia quando Gabriela chegou. Uma menina bem alta, mas que pelo modo de andar e rir confessava ainda ser uma criança. Ela estava agitada, preocupada, e só queria saber em que lugar ela colocaria suas mudas e suas mandiocas. Ivanir até que tentou me apresentar a filha, porém toda a atenção da menina estava voltada às mandiocas.

“Se a gente é o que come, quem não come nada some,
por isso ninguém enxerga essa gente que passa fome”.
(Victor Rodrigues)

Arnaldo Antunes ComidaQuais as necessidades humanas? De que temos fome? Se tomarmos como mote para essa discussão a música Comida, dos Titãs, podemos encontrar alguns eixos norteadores que ampliariam nossa visão da fome como um problema não apenas individual como também social, político, cultural, perpassando questões como cidadania, igualdade, desejo/prazer e outras necessidades humanas que ultrapassam as carências nutricionais ou desnutrição. Ainda que o acesso à comida fosse universal, ele não deveria ser homogeneizante, como satiriza a letra dos Titãs: “Bebida é água! Comida é pasto!”.
Em nosso país, a construção de conceitos como fome, desnutrição, insegurança alimentar têm um vasto histórico na formulação de políticas públicas, tornando-se emblemática a luta e combate à fome, defendida por grandes pesquisadores, instituições e governos, em diferentes perspectivas até os dias de hoje. Mas o pensamento coletivo sobre a fome, essa necessidade crônica de tantos, que expõe carências humanas diversas, medos e uma insegurança diária sobre não ter o que comer, ainda parece ser pouco escutado. Escuta que pressupõe um protagonismo nesse querer “não só comida”, mas autonomia no comer/alimentar-se, domínio de suas práticas alimentares e comensalidades, melhorias de qualidade de vida e cidadania.

Feira do Modelódromo do Ibirapuera BDesde seu início, a modernização da agricultura se espalhou pelo mundo levando a promessa de que, por meio do uso de agroquímicos, poderíamos produzir alimentos baratos e em quantidade suficiente para acabar com a fome do mundo. No entanto, essa promessa não levava em consideração a qualidade de alimentos ou tampouco a saúde de trabalhadores e consumidores. Considerava, menos ainda, os impactos sociais e ambientais.  

Porém, não demorou muito para que os efeitos colaterais desse modelo de produção viessem à tona. Ainda em 1962, quando a Revolução Verde recém chegava aos países do hemisfério sul, a bióloga Rachel Carson publicava o livro “Primavera Silenciosa”, relatando os impactos dos agrotóxicos ao meio natural. Na época, a descoberta foi polêmica e altamente questionada. Hoje em dia, a quantidade de pesquisas e evidências já não nos permite negar o impacto nocivo dos agrotóxicos, seja na produção ou no consumo.

chocolateO filme Chocolate, lançado em 2001 e dirigido por Lasse Hallstron, aborda a história de Vianne Rocher que, acompanhada de sua filha de seis anos, muda-se para uma pequena cidade católica do interior da França, com o propósito de abrir uma loja de chocolates em plena época da quaresma. Diante da novidade, a população fica curiosa em conhecer o local, mas, sob forte influência da religião e permanente vigilância do prefeito da cidade (o Conde Paul de Reynaud, católico fervoroso), é levada a reprimir sua vontade e desejo de consumir o produto tão tentador quanto profano.

No próximo dia 13 de setembro, às 14h30, acontecerá o lançamento do vídeo Guardiãs do Queijo Coalho no Sertão. O evento será realizado no Cine Vitória, na antiga Rua 24h, em Aracaju.

O vídeo exibe o modo de vida das mulheres sertanejas que aproveitam o leite, importante recurso territorial, para elaborar o queijo. Com o soro, subproduto da produção de queijos, as mulheres alimentam os suínos que, comercializados, geram a renda que contribui para a sustentabilidade do estabelecimento rural e a continuidade nessa terra lugar de vida e labuta. As camponesas “mulheres de opinião” dos municípios de Monte Alegre de Sergipe, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória e seus familiares contam suas histórias e manifestam a relevância da produção de queijo para a vida das famílias sertanejas.

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