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*texto originalmente publicado em De Olho nos Ruralistas


Natalie Lima, Glenn Makuta, Susana Prizendt, João Peres e Ademar Ludwig. (De Olho nos Ruralistas)

Encontro realizado no Dia Internacional da Agricultura Familiar mostrou de que forma o cultivo de alimentos dominante no Brasil, apoiado por governo e indústria, impacta negativamente na vida do brasileiro

O que o modelo de produção agrícola prevalente no Brasil hoje tem a ver com a obesidade crescente da população brasileira? Ambos estão intimamente ligados, com impacto extremamente negativo na saúde dos brasileiros – especialmente os de baixa renda -, segundo os participantes do encontro “Por outra agricultura: construindo alternativas ao agronegócio”, realizado na noite de quinta (25), Dia Internacional da Agricultura Familiar, no Ateliê do Bixiga, em São Paulo.

Organizado pelo De Olho nos Ruralistas em conjunto com o movimento Slow Food Brasil, O Joio e o Trigo e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, o debate, mediado pela antropóloga Natalie Lima, do De Olho, contou com a participação de Ademar Ludwig (Rede Armazém do Campo, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, MST); Glenn Makuta (Slow Food); Susana Prizendt (Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida); e João Peres (O Joio e o Trigo).

A escassez de subsídios para a agricultura familiar e orgânica, em comparação à oferta de recursos alocados para o agronegócio, foi um dos principais pontos discutidos. A medida torna extremamente baratos produtos como cana, milho, trigo e soja, produzidos em esquema de monocultura, em extensos latifúndios. Resultado: o brasileiro se abastece mais de alimentos industrializados, ultraprocessados, feitos com essas matérias-primas, e deixa de consumir frutas, verduras e legumes sem agrotóxicos. Motivo: preços e aparência mais atraentes, no último caso estimulada pelas embalagens e pela publicidade.

BANCADA RURALISTA ‘INVADE’ FRENTE DA ALIMENTAÇÃO

Para João Peres, de O Joio e o Trigo, essa situação é extremamente grave. Na quarta-feira, como ele observou, o Ministério da Saúde apresentou uma pesquisa com dados  preocupantes: o número de obesos no país aumentou 67,8% entre 2006 e 2018. As doenças crônicas não transmissíveis já são a causa principal de mortalidade e incapacidade prematura, por conta do aumento de peso.

O governo, ao mesmo tempo em que alerta para o problema, diz Peres, traz “soluções fáceis” para algo tão complexo. Ele citou a criação, em maio, da Frente Parlamentar Mista de Alimentação e Saúde, na Câmara: metade dos integrantes pertencem à bancada ruralista. Ou seja: são parlamentares que, entre outras questões, votam a favor de mais liberação de agrotóxicos e de mais subsídios para o agronegócio.

“Governo e indústria se apropriam da bandeira da saúde, propondo soluções como alimentação saudável, prática de exercícios físicos e bom sono”, disse Peres. “Mas o que oferecem como alimentação saudável são produtos industrializados que enganam o consumidor, como biscoitos cheios de sódio e gordura trans, mas feitos com uma fração de farinha integral, por exemplo, que contribuem para aumentar o número de pessoas com diabetes e doenças cardíacas”.

Peres escreveu um artigo comentando as propostas da frente. Segundo ele, ficou claro que a medida integra “um esforço coordenado do agronegócio e das fabricantes de produtos comestíveis”, em favorecimento de ambos. O que falta na mesa dos brasileiros, afirmou, é “comida de verdade, saudável”.

O preço do orgânico é um fator impeditivo para o produto chegar ao brasileiro de baixa renda, reconheceu Ludwig, do MST. “Quando o movimento foi criado, em 1979, tínhamos uma postura clara: ocuparmos os latifúndios improdutivos”. Hoje, disse, o movimento quer mais: pretende propor um novo modelo de produção, livre do agrotóxico, com menos impacto ambiental. E esse tem sido o grande desafio do movimento nesse século.

“Temos que pensar algo diferente, não queremos fazer ‘agronegocinho’, ou seja, reproduzir o modelo do grande produtor em nossos assentamentos”, disse. O objetivo, segundo Ludwig, é fazer o alimento saudável chegar à mesa dos trabalhadores dos centros urbanos. Mas o maior empecilho são os subsídios concedidos pelo governo aos grandes produtores: “O agronegócio quase todo é financiado pelo estado, enquanto quem faz agricultura familiar, orgânica, como temos feito em vários assentamentos, tem de pagar pra ser certificado, e não pagamos pouco, isso é um absurdo”.

Com seis lojas no Brasil que comercializam alimentos da reforma agrária, o MST luta para expandir os pontos de venda para áreas periféricas dos municípios mais populosos, chegando a pessoas de baixa renda. “Mas não temos conseguido ampliar da forma como imaginamos, justamente porque não encontramos o apoio que o agronegócio tem”. O modelo “oficial” de cultivo, enfatizou, precisa de muita terra, pouca mão de obra e alta tecnologia. “Nós vamos na contramão disso tudo e não interessamos ao governo”, afirmou Ludwig.

DOS AGROTÓXICOS NINGUÉM ESTÁ LIVRE 

A recente pesquisa do Ministério da Saúde discutida no encontro diz que, “na contramão do aumento dos percentuais de obesidade e excesso de peso, o consumo regular de frutas e hortaliças cresceu”.  O texto de lançamento da Frente Parlamentar Mista de Alimentação e Saúde também enfatiza a importância do consumo desses alimentos. Mas, concomitantemente, o governo atual é recordista na liberação de agrotóxicos.

“Fica difícil manter a saúde assim”, afirmou Suzana. Os agrotóxicos são rejeitados pela maioria dos brasileiros, informação que consta em pesquisa citada por ela. “Mas que alternativas as pessoas têm se até a água está contaminada?”. Para cada R$ 1 investido no agronegócio, afirma, são gastos pelo SUS, apenas para tratar casos de intoxicação provocados por pesticidas, R$ 1,28. “As principais vítimas continuam sendo os trabalhadores rurais, que têm de manusear esses produtos diretamente, e aqueles que moram em áreas onde são lançados venenos por aviões, como indígenas, duramente atingidos”. Mas ninguém está livre, nem quem consome só orgânicos, apontou, pois até a água contém excesso de substâncias tóxicas.

Sobre esse tema, Peres apresentou outro dado alarmante: uma pessoa morre a cada um dia e meio por conta da contaminação por esses produtos, segundo estudo feito pela geógrafa Larissa Lombardi, da Universidade de São Paulo. “Não são mortes agudas, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) agora só está preocupada com esse parâmetro para proibir agrotóxicos”, disse, referindo-se ao novo marco regulatório da agência, aprovado dia 22, para avaliação e classificação toxicológica dos produtos.

Glenn Makuta, do Slow Food, falou de quanto o agronegócio leva à perda de identidade cultural. “Estamos deixando de plantar certos alimentos e com isso a cultura atrelada a esse cultivo é perdida: entram aí pontos como rituais do plantio, colheita, as músicas envolvidos, histórias, saberes e sabores”, observou. “Temos uma visão colonizada dos alimentos e estamos atrelados a um estado que fomenta um modelo destruidor do ponto de vista ambiental, social e também cultural: o que se perde dificilmente volta”.

Makuta tocou na biodiversidade alimentar, uma característica do Brasil. “Bacupari, por exemplo, quem conhece?”, perguntou, referindo-se a um fruto oferecido aos participantes do debate, juntamente com outros alimentos provenientes da agricultura agroecológica, levados por integrantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Em contraponto ao modelo vigente, foram mostradas, pelo público e pelos debatedores, algumas iniciativas de educação ambiental e de segurança alimentar, como a necessidade de divulgar mais o consumo de alimentos pouco conhecidos, como as plantas alimentícias não convencionais (pancs) e a criação de hortas orgânicas em escolas e praças da periferia. “É muito importante divulgar o que o agronegócio tem trazido de ruim, como tem devastado o Cerrado, as florestas, e como tem minado a saúde das pessoas, pois, de posse desses conhecimentos, precisamos nos unir e encontrar alternativas para os problemas”, disse Suzana.

DE OLHO NOS RURALISTAS LANÇA DE OLHO NA FRONTEIRA

Antes do debate, foi apresentado à plateia o mapa De Olho na Fronteira, elaborado pela equipe do De Olho nos Ruralistas.  O mapa, uma iniciativa que teve início com a série de reportagens De Olho no Paraguai, de 2017, traz uma relação de grandes latifundiários ligados ao agronegócio na fronteira entre o Paraguai e o Mato Grosso do Sul.

“O Brasil exporta produtos e esse modelo também”, disse Bruno Stankevicius Bassi , da equipe do De Olho. “Com o mapa, queremos mostrar quem são os atores envolvidos no genocídio de muitos povos indígenas: empresas, políticos e poder judiciário”,

O De Olho na Fronteira contou, na elaboração e impressão do mapa, com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, com fundos do Ministério Federal para a Cooperação Econômica e de Desenvolvimento da Alemanha.

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