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Hipermercados e uma pequena mercearia. Reflexões sobre o caso de Rimouski (Estado de Quebéc, Canadá)
Hipermercados e uma pequena mercearia. Reflexões sobre o caso de Rimouski (Estado de Quebéc, Canadá) |
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Viver localmente, comer globalmente: super e hiper-mercados em Rimouski Causa impressão às pessoas do hemisfério sul observar e conhecer a alimentação, a comida e os produtos agrícolas do hemisfério norte; chamam atenção, particularmente, as diferenças. Uma das primeiras constatações é a de que, no hemisfério norte aparentemente com maior intensidade do que no sul, o clima e as estações do ano interferem diretamente no cotidiano de aquisição alimentar. Segundo, é possível observar, no caso do Canadá, a presença de conjuntos de produtos e alimentos com diferentes procedências nacionais, regionais e, portanto, vindos de diversos ambientes naturais e sociais, formando um mosaico de alimentos de diferentes partes do mundo.
Em Rimouski, uma cidade do Canadá com pouco mais de 40 mil habitantes, localizada na região do Baixo Rio São Lourenço, é possível observar e fotografar as redes de supermercados que vendem produtos originários de outras macro-zonas climáticas mundiais.
Nas grandes redes de supermercado, encontra-se a efetivação de alguns aspectos da globalização, que pode ser expressa pela oferta de diferentes produtos, originários de vários países e nações, o que possibita em parte, na pequena Rimouski, "viver localmente", mas "comer globalmente". O que talvez seja interessante problematizar é: a crítica ecologista ou sócio-ambiental ao sistema econômico-comercial mundializado, afirma: "pense globalmente, coma localmente". Contudo, tal reflexão e crítica devem ser efetuadas, apenas, às grandes redes de supermercados? Ou também aos pequenos armazéns, mercearias, quitandas, lojas e bancas?
O caso da mercearia "Mercado do Mundo"
O proprietário (JB) fundou a loja em 15 de outubro de 2007. Nascido na Costa do Marfim, ele veio à cidade de Rimouski realizar seus estudos no ensino médio, quando a guerra civil em seu País dificultou seu retorno. JB começou a perceber que, asssim como ele, outras pessoas vindas de outros países sentiam falta de produtos da terra natal e que ele poderia fazer comércio trazendo o que essas pessoas solicitassem. Foi o que fez. Abriu a mercearia, inicialmente com poucos produtos, e a partir das demandas e pedidos dos consumidores, passou a buscar os produtos junto a empresas importadoras especializadas. Assim ele diz trabalhar até hoje: da demanda de seus clientes, ele faz pedido a seus fornecedores. Quando algum cliente pede, por exemplo, um refrigerante guaraná, vindo do Brasil: "eu pego a encomenda e compro das empresas de importação", afirma o comerciante. É claro que ao longo do tempo, ele já mantém um estoque e pronta-entrega. Os produtos vendidos em sua loja não são encontrados nas grandes redes de supermercado, são produtos específicos e, às vezes disponíveis em pequenas quantidades, que os imigrantes demandam ou os próprios canadenses que, após conhecerem aspectos alimentares de outros países, acabam fazendo pedidos de comidas de lugares aonde foram. JB diz que metade de seus clientes são canadenses e metade são estrangeiros, dos mais diversos lugares do mundo. Entre os estrangeiros, predominam os colombianos, que costumam vir para o Canadá como imigrantes em famílias, diferentemente dos migrantes temporários (quase maior parte estudantes) de outros países, que vêm sozinhos.
Se a agricultura de proximidade tem sido apontada como alternativa viável ao abastecimento e acesso alimentar com menor degradação ambiental e melhor desempenho da gestão dos recursos - pois privilegia satisfatoriamente os produtos locais, evita deslocamentos e transporte de longas distâncias (consumindo menos combustível fóssil), diminuindo os riscos e sensações de insegurança alimentar -, por outro lado ela implica em abrir mão de trocas comerciais e culturais no que se refere ao plano alimentar. Fazer uma opcão pela agricultura de proximidade também significa aceitar apenas os produtos em que o clima e o ambiente tornem favorável a produção e, talvez, reduzir as possibilidades do cardápio das comidas, inclusive, com uma ampliação de monotonia alimentar, principalmente para as regiões de clima temperado e invernos longos, como é o caso do Canadá.
Lembremos, por exemplo, a relação entre os elementos da cadeia do frio, hoje tão essencial ao cotidiano de boa parte da humanidade. Há uma relação necessária, entre a geladeira e o freezer domésticos, o caminhão refrigerado, os depósitos frios nos comércios e os grandes frigoríficos e fábricas. Trata-se de um todo cujos elementos apenas são viáveis em conjunto (SANTOS, 2008, p.71). No mesmo processo de definição e busca do comer localmente e da realização de uma agricultura de proximidade, deve-se levar em conta quais produtos são realmente locais. Ao realizarem-se análises desse tipo, levando-se em conta fatores ambientais, históricos e culturais, é perceptível que o tempo presente é também momento de intenso hibridismo alimentar entre regiões do mundo, algumas produzem e vendem mais (ofertam), outras compram e consomem mais (recebem). E é de relações como essas, entre os hemisférios sul e norte, que nesse último encontram-se produtos tropicais, mesmo em um inverno marcado por ondas de frio e tempestades de neve... compram-se e comem-se produtos colhidos em um verão distante.
Referências HODGE, Helena Norberg; MERRIFIELD, Tood; GORELICK, Stven. Manger local: un choix écologique et économique. Montréal: Les Editions Écosociété, 2005. JEAN, Bruno; DIONNE, Stève; DESROSIERS, Lawrence. Comprendre le Quebéc rural. Rimouski: Chaire de recherche du Canada en développement rural, Université du Québec à Rimouski-UQAR, GRIDEQ, 2009. SANTOS, Milton. A natureza do espaco: técnica e tempo, razão e emoção. 4ªed. São Paulo: Ed. USP, 2008.* Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é licenciado em Geografia. Historiador e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS), atualmente está realizando estágio na Universidade de Quebéc (UQAR), em Rimouski.
1. Excelente Escrito por
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( http://magiadailha.blogspot.com/) Em 15-05-2010 14:39 Muito interessante tua explanação André.Passa-nos uma noção perfeita da alimentação em países frios! abçs gení 2. "Alimento globalizado" Escrito por
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Em 19-07-2010 16:44 Muito bom seu artigo,André! Um verdadeiro exemplo de alimentação globalizada. Em um país tão frio é possível se encontrar todas esses alimentos tropicais. Legal mesmo! Interessante também, deve ser a forma de conservação desses alimentos naturais, gostei mesmo! Parabéns pelo seu trabalho! 3. Maracújas na neve? Escrito por
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( http://www.raphbresil.blogspot.com) Em 16-02-2011 02:08 Puxa... Que estranho! Recebendo Alê em Rimouski, levei ela no super mercado pra fazer as suas compras e ajudar ela organizar sua nova vida. Primeiro comentário que fiz pra Alê entrando no mercado : "Olhe aqui o contrasto : neve fora, cheia de frutas aqui dentro. Alguma coisa está errado nessa modo de consumação..." Adorei a sua publicação. É um assunto que eu acho importantíssimo, mas parece que ninguém está prestando atenção. Incrível como que a maioria do povo do hemisfério norte acha que tudo isso é a coisa mais normal do mundo... Esperando que as coisas vão mudando pouco a pouco, vamos continuar propagando este recado! Meus parabéns! Escrever comentário
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