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Coluna - Alimentação e Cultura
Mulheres extraordinárias: trajetória de agricultoras/doceiras de Maquiné no Movimento Slow Food
Mulheres extraordinárias: trajetória de agricultoras/doceiras de Maquiné no Movimento Slow Food |
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Naquela época, eu havia há pouco concluído minha dissertação de mestrado, pesquisa que me proporcionou conhecer algumas famílias rurais de Maquiné e, a partir da qual, percebi a permanência e a importância do forno de barro na alimentação cotidiana e festiva das comunidades rurais do município. Foi também a partir da vivência acadêmica que conheci o Movimento Slow Food. Para mim, esse era o início de uma caminhada e de um convencimento, sobre a necessidade de articular o rural e o urbano, como estratégia de desenvolvimento e qualidade de vida, em ambos os espaços.
Depois de muitos acertos, idas e vindas, partimos em três para Brasília, no início de outubro de 2007. Viagem longa, de ônibus, junto com outros agricultores do Rio Grande do Sul, que seguiam para a IV Feira Nacional da Agricultura Familiar, realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, que aconteceria simultaneamente ao evento em que estávamos indo participar. Foram quatro dias de encontros e trocas. Afinal, dentre os quase 300 participantes do Terra Madre Brasil, havia pescadores, agricultores familiares, indígenas e quilombolas de todo o País, trazendo produtos dos mais diversos: arroz vermelho, mel de abelhas nativas, feijões, doces de licuri, castanha de baru do cerrado, castanha do Brasil, berbigão de Santa Catarina, ostra de Cananéia, diferentes tipos de farinha de mandioca, diversas sementes de milho crioulo... Dentre outros 70 grupos de pequenos produtores, estavam as doceiras de Maquiné, com suas cucas, broas, bolachas e rosquetes.
Grande parte das agricultoras de Maquiné tem, entre suas tarefas semanais, a prática de assar uma fornada de pães para a família. Às vezes, capricham também em outras receitas feitas no forno de barro: bolachas, rosquetes, broas, cuca, merengue... que costumam deixar preparadas, para as visitas. A passagem do tempo em Maquiné é marcada pela realização de festas aos Santos e Santas padroeiros(as), realizadas pelas comunidades rurais. Nessas festas, o trabalho das doceiras é de grande importância: os produtos que fabricam são parte fundamental da festa, muito procurados pelos visitantes.
O saber-fazer envolvido no uso do forno de barro envolve desde a escolha da melhor lenha para a produção de boas brasas, o ponto certo da temperatura para cada doce, a quantidade limite de formas por fornada e o tempo ideal para que assem de modo a atingir as características de cor, sabor e textura estabelecidas pela tradição. Os doces do forno de barro são tão conhecidos em Maquiné que construíram padrões de identidade e qualidade que devem ser atingidos por quem os produz, e que normalmente são conhecidos e apreciados (ou exigidos) por quem os consome. É assim que toda cuca para ser cuca precisa ter canela e noz-moscada, "senão não é cuca!". Além disso, ela deve ser doce, com "sal e açúcar no ponto", e a cor uniforme, marrom claro. O consumo de cuca, pão de milho, rosquete, broa, faz parte de um passeio pelo município, compõe a identidade de seus moradores e agricultores e integra as lembranças do lugar, tanto para seus filhos como para os visitantes.
O encontro com o movimento Slow Food, em 2007, através da participação no Terra Madre Brasil, iniciou um processo de valorização do trabalho da agricultora/doceira, assim como o convívio com outras agricultoras e técnicas-pesquisadoras, em reuniões e encontros preparatórios, agora, para uma segunda e mais longa viagem - o terceiro Terra Madre - Encontro Mundial das Comunidades do Alimento, que aconteceria em outubro de 2008, na Itália. Para essa viagem, um grupo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS que atua em Maquiné (em que me incluo) promoveu momentos de convívio e de engajamento com a proposta do Slow Food e do Terra Madre, com a participação de diferentes atores sociais do município. Um deles foi a visita feita por algumas jovens do Ensino Médio para a propriedade da família Bonho.
O relato acima, escrito por Natália (16 anos), demonstra um pouco do potencial mobilizador que a valorização de saberes e práticas locais oportuniza. As ações, desenvolvidas com o objetivo de aglutinar as pessoas em um processo de valorização da cultura local, têm contribuído para a construção e fortalecimento de identidades, para a participação social e para o exercício da cidadania. Nita representou as agricultoras/doceiras de Maquiné no encontro internacional, sempre demonstrando grande alegria em conhecer o país de onde vieram seus ancestrais. Lembro de uma situação, durante o encontro na Itália, em que diferentes participantes do Brasil jantavam juntos. Conversávamos à mesa com agricultoras/quebradeiras de coco de babaçu do Maranhão, e Nita falava, com orgulho, que era italiana, causando grande estranhamento por parte de Dona Zezé, agricultora maranhense que a ouvia. Nos momentos seguintes, presenciei uma bela conversa: mulheres extraordinárias, de origem e vida simples, nascidas no mesmo País, agricultoras e moradoras do meio rural, dando-se conta de suas diferenças, mas, também de sua identidade em comum - todas ali, independente se do Norte ou do Sul, brasileiras e sul-americanas. O confronto com o diferente, com pessoas de todo o mundo, servia para fortalecer identidades e, quem sabe, reforçar o que havia de comum entre nós, brasileiras(os). Voltando a Maquiné, a mobilização segue. Recentemente, em agosto de 2009, a Comunidade de Doceiras de Maquiné, em parceria com pesquisadoras da UFRGS, promoveu o II Encontro de Doceiras de Maquiné. Passamos um sábado juntas, modificando receitas já testadas em um primeiro encontro: pães (agora também integrais), bolachas (agora também de milho) e rosca de polvilho.
Ao valorizar um produto que é feito por gerações e gerações, resgatamos o valor que as próprias famílias rurais viram enfraquecer ao longo dos anos de disseminação de uma ideologia que valoriza o moderno e prático e que fez (e faz) com que os jovens desejem sair do campo... Não temos respostas imediatas para questãos tão antigas e complexas. O que percebemos, após cinco anos de envolvimento, é a consolidação de uma grande e bela rede, especialmente protagonizada por mulheres.
* Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é Nutricionista, Mestre em Desenvolvimento Rural pelo PGDR/UFRGS, pesquisadora do DESMA, técnica da ong ANAMA e aprendiz de doceira. Participa do Convivium Produtos da Terra - Rio Grande do Sul, do Slow Food.
1. NOSTALGIA Escrito por
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Em 06-11-2009 10:01 AH QUIE SAUDADES QUE ME DÁ DE MINHAS AVÓS. ELAS REUNIAM OS NETOS EM TORNO DA MESA GRANDE, PARA QUE FORMATÁSSEMOS OS BONECOS QUE SERIAM LEVADOS AO FORNO JUNTO COM AS CUCAS , ROSCAS E PÃO. E ERA NA SEXTA FEIRA O DIA DA "FORNADA". MUITO OBRIGADO POR ME FAZER RECORDAR TÃO PRECIOSO ENSINAMENTO. ESSAS SENHORAS DE MAQUINÉ SÃO AS MULHERES "QUE SABEM...." VERDADEIRAS ALQUIMISTAS. UM ABRAÇO A TODAS ESSAS QUERIDAS...... 2. que lindo! Escrito por
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Em 09-11-2009 18:21 Mariana, que lindo seu texto e seu trabalho! Fiquei com água na boca e com coração repleto de alegria. Alegria também de saber que faço parte desta rede maravilhosa que é a Rede Terra Madre. Hoje estava justamente esboçando uma aula/encontro com meus alunos da gastronomia para pensarmos nossa participação do Festival Gastronômico de Pirenópolis que acontecerá em breve.Seu texto serviu como uma luva para o que eu gostaria que fizessemos. Fiquei inspiradíssima, obrigada! depois te mando notícias sobre nosso encontro e o festival. abraço Katia 3. que lindo! Escrito por
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Em 10-11-2009 11:59 Mari! que saudades dessa gauchada querida!! Parabéns pelo trabalho! Escrever comentário
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