Acervo de textos
Coluna - Alimentação e Cultura
O poder culinário entre os Mbyá-Guarani
O poder culinário entre os Mbyá-Guarani |
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Na atualidade, devido à pouca terra demarcada para o grupo e suas más condições ambientais, as tarefas do sistema culinário Mbyá-Guarani sofreram algumas alterações. Os homens, impedidos - pela escassez de rios e matas - de caçar, coletar e pescar, passam a contribuir mais no cultivo das roças. Com isso, homens e mulheres vêm dedicando-se a outras atividades, como a produção e comércio de artesanato, para obter recursos monetários e comprar alimentos em substituição aos que antes eram obtidos no meio ambiente. Mas, mesmo diante do novo quadro, homens e mulheres continuam dividindo as tarefas que proporcionam seus alimentos, com destaque para as mulheres, que são responsáveis por seu preparo. Podemos, então, afirmar que mulheres e homens são responsáveis pela sobrevivência física dos membros do grupo, no que tange à obtenção de nutrientes. Contudo, o ato de comer vai muito além do que a simples - porém necessária - ingestão de nutrientes. A comida simboliza. Ela, além dos nossos corpos, alimenta também nossos imaginários. Ao comer, incorporamos tanto aspectos nutricionais quanto simbólicos dos alimentos que ingerimos (FISCHLER, 1995). E, no que se refere aos Mbyá-Guarani, é no campo do simbólico que mais se destaca a participação das mulheres nas tarefas de seu sistema culinário.
Além de diferenciarem-se etnicamente pela comida, os Mbyá-Guarani utilizam a alimentação para diferenciar-se dos demais seres que habitam seu cosmos. A cosmologia Mbyá-Guarani compreende três diferentes domínios: natureza, sociedade e sobrenatureza. Eles são habitados, respectivamente, por animais, seres humanos e divindades. Porém, as fronteiras entre os diferentes domínios não são estanques, pois homens, deuses e animais convivem em espaços comuns e em constante interação. As fronteiras entre estes domínios são muito tênues, podendo ser facilmente transpostas (TEMPASS, 2008). Os Mbyá-Guarani encontram-se no domínio central, na sociedade, entre os animais e os deuses. Podem tanto transformar-se em animais quanto em deuses. Uma série de regras controla a transposição destes domínios e dentre elas destacam-se as regras alimentares. Caso estas regras não sejam cumpridas, os Mbyá-Guarani correm o risco de adentrarem o domínio da natureza, tornando-se animais. Por outro lado, respeitando as regras, eles habilitam-se ao domínio da sobrenatureza, tornando-se deuses.
As formas de preparar esses alimentos também foram definidas por Ñanderú. Entre os Mbyá-Guarani, a noção de "criação" precisa ser relativizada. Eles não criam nada, apenas reproduzem os modelos criados pelos deuses (TEMPASS, 2007). Assim, segundo os Mbyá-Guarani, há milênios as mulheres preparam os alimentos exatamente da forma que os deuses definiram. Os alimentos assim obtidos e preparados são considerados "perfeitos". São eles que tornam corpo e alma perfeitos. E somente com a perfeição do corpo é que se pode atingir o domínio da sobrenatureza e, desse modo, tornar-se também um deus. E, ao contrário, corpo e alma imperfeitos transformam-nos em animais. A perfeição dos corpos e das almas Mbyá-Guarani estão diretamente relacionados com a concepção de saúde deste povo. Comer seus alimentos tradicionais significa ter saúde.
Todavia, o poder culinário feminino entre os Mbyá-Guarani é forte, de tal maneira que suas restrições alimentares acabam sendo praticadas por todos os indivíduos do núcleo de produção e consumo. Elas preparam as comidas conforme as restrições que lhes recaem, só que não preparam uma comida diferenciada para os demais. Todos partilham de uma mesma comida. Entre os Mbyá-Guarani, cada um come o que os outros também podem comer. Desta forma, a dieta cotidiana dos Mbyá-Guarani, na maioria das vezes, além de preparada pelas mulheres, é também determinada pelas prescrições alimentares que recaem sobre elas. REFERÊNCIAS BARTH, Frederick. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART, Jocelyne (Org.). Teorias da etnicidade. São Paulo: Ed. Unesp, 1988. FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995.
TEMPASS, Mártin César. O belo discreto: a estética alimentar Mbyá-Guarani. Revista Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 170-194, jul./dez. 2007. TEMPASS, Mártin César. Comida e gênero entre os Mbyá-Guarani. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia, v. 19, n. 1, p. 287-309, jan./jul. 2008. * Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é antropólogo, atualmente em doutoramento pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS)
1. Escrito por
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Em 25-09-2009 10:59 Oi Martin! Belo estudo!É muito interessante que a lógica das prescrições alimentares femininas (incluindo noções de saúde e estados animalescos ou divinos) se apliquem, igualmente, aos demais membros do grupo. Parabéns! 2. Receitas Escrito por
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Em 28-09-2009 11:45 Excelente texto! Tive a felicidade de visitar uma aldeia em Ubatuba, quando era criança, e essa visita me marcou para a vida toda. Esse tema me interessa muito. Sabe dizer onde podemos encontrar receitas de pratos tradicionais da culinária Mbyá-Guarani? Não é pra uso comercial, não, é para experimentar em casa. Claro que não vai ficar igual ao original... Aquela última foto é uma espécie de pão? É interessante como essa noção de alimentos permitidos x proibidos aparece em diferentes culturas. Parabéns! Escrever comentário
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