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Coluna - Alimentação e Cultura
Fazeres e saberes alimentares: permanências do ser agricultor
Fazeres e saberes alimentares: permanências do ser agricultor |
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Em menção à frase de Antonio Candido, este artigo aponta fazeres e saberes alimentares presentes na agricultura familiar de Jaboticaba, Rio Grande do Sul, que se conformam como fatores de permanência de um modo de vida, representando e significando a identidade de (ser) agricultor. Jaboticaba é um município localizado no Médio Alto Uruguai, região noroeste do Rio Grande do Sul. Grande parte da população atual do município é constituída por descendentes de imigrantes italianos e migrantes no território gaúcho, advindos das regiões de colonização, sobretudo da Quarta Colônia de Imigração Italiana, antiga Colônia de Silveira Martins, mais especificamente dos atuais municípios de Faxinal do Soturno, Júlio de Castilhos e Nova Palma, localizados na região centro do estado (DALLA NORA, 2006). As condições sócio-históricas de Jaboticaba construíram uma conjuntura característica do local, marcada pela agricultura predominantemente familiar, com a maioria da população no rural, permitindo que se desenvolvesse cultura, trabalho e culinária com características próprias.
A continuidade de hábitos alimentares ligados ao (ser) agricultor, muito mais do que um cardápio pensado a partir dos alimentos locais, explicita a tradição alimentar como resultado dos movimentos de diferentes atores sociais nas relações com a comida, conformando sua identidade. Assim, os fazeres alimentares revelam o feitio das preparações culinárias, reinterpretando significados do sistema alimentar local. As histórias dos antigos, a chegada até o território, bem como tradições e costumes são elementos que se relacionam com as práticas agrícolas, alimentares e as relações dos indivíduos com a comida. O entendimento do que é ser agricultor, por eles mesmos, tornou-se ponto de partida para a compreensão do sistema alimentar local, pois, invariavelmente o ser agricultor relembra o modo de preparar a terra, de separar as sementes a serem armazenadas, o modo de preparo de doces, embutidos, pães e das comidas do dia-a-dia, conectando as memórias daqueles que ensinaram a lida na lavoura. A organização do sistema alimentar local e a valorização das práticas tradicionais podem ser verificadas, entre outros elementos, no preparo dos doces e pães, bem como na carneação, da qual resulta a banha, o salame e o torresmo. Muitas famílias organizavam-se para o feitio do açúcar e preparo dos doces e chimias (doces pastosos de frutas, utilizados para passar no pão), pois fazer o açúcar de cana e, a partir dele, chimias, geléias, rapaduras, puxa-puxas, constitui-se em prática que motiva todo o grupo familiar. Ainda que a rotina de trabalho para a execução dessas atividades seja dura, como o preparo de todos os equipamentos e materiais necessários para o feitio do açúcar, as pessoas manifestam empolgação em tal acontecimento. Como observam Woortmann & Woortmann (1997), cada cultura opera procedimentos técnicos, formas de saber e construções simbólicas específicas na transmissão do saber para o processo de trabalho. Desse modo, o momento do feitio do doce apresenta-se como um dos momentos altos da sociabilidade local, em que os vizinhos e parentes se achegam para ajudar na lida e onde saberes inerentes ao preparo do doce - como o ponto em que está pronto o doce, o modo de retirar o melado do tacho, o modo de fazer o puxa-puxa - são renovados e reproduzidos aos filhos e parentes mais jovens.
As práticas alimentares tradicionais estão ligadas ao trabalho da terra e à estrutura organizativa familiar. A tradição alimentar é identificada pelos agricultores como um modo de vida próprio, relacionado ao trabalho da roça. Algumas receitas sugerem apropriações singulares da identidade do agricultor de Jaboticaba, a exemplo do doce de jaracatiá, do bolo de festas, das cucas e pães, do crostoli (espécie de biscoito frito feito a partir de uma massa a base de farinha de trigo, açúcar, sal, ovos, "empanado" com açúcar e canela) e dos tipos de fermentos utilizados no preparo de pães e cucas (fermento de batatinha ou fermento da própria massa de pão que é granulado, para fins de conservação, com farinha de milho). Determinadas preparações culinárias mantêm relações com a história de ocupação do território e, por certo, com a história dos sujeitos locais. Um exemplo é o doce de jaracatiá. Este doce está relacionado como um dos pratos preparados habitualmente pelos primeiros colonos que assentaram-se na localidade e que exploravam a diversidade de plantas locais. Pude perceber a relevância desse doce para aquele grupo durante uma festa de comunidade, quando entrevistava algumas mulheres e uma delas descreveu o doce de jaracatiá. Enquanto ela anunciava os ingredientes da receitas, todas as demais relembravam alguns aspectos no modo de preparo do doce e nas etapas para retirar o miolo do jaracatiá, com o qual é feito o doce.
Para preparar o doce de jaracatiá, as mulheres utilizam somente o interior do caule. Esta parte é usada ralada, o que confere textura característica ao doce. Segundo as senhoras entrevistadas, antes de adicionar o jaracatiá ralado no doce, é necessário um manuseio, um modo de preparo particular ao jaracatiá, para que o gosto amargo da planta não prejudique o paladar do doce. O doce de jaracatiá é semelhante à rapadura de leite ou pé-de-moleque: o molequinho, como é chamado no local. Os ingredientes são: leite e açúcar, somando-se o jaracatiá, que confere um sabor parecido ao do coco ralado e, conforme os relatos, é um doce apropriado para servir durante conversas ao pé do fogão à lenha, regadas por chimarrão. Depois de conhecer o doce de jaracatiá e sua inserção no sistema alimentar local, observei o valor simbólico atribuído ao doce, que remete aos tempos de adaptação das pessoas ao território e seu ambiente. Amon & Menasche (2008), em trabalho que propõe tomar a comida como narrativa da memória social, formulam que a comida possui uma dimensão comunicativa, podendo contar histórias, muitas vezes através da memória daquele que narra. Dessa forma, na comida rotineira, pode-se perceber a afirmação de identidades. Igualmente, as narrativas apropriadas pelos sujeitos locais pretendem construir e dar continuidade à produção dos saberes. Logo, as receitas compartilhadas, como é o caso do doce de jaracatiá, ou mesmo do modo de fazer o açúcar mascavo, o salame ou outros preparos, são modos de partilha e transmissão de conhecimento e saberes tradicionais locais, que revisitam a memória social, compartilhando momentos dos antigos, afirmando identidades. Receitas do dia-a-dia são trocadas entre familiares e vizinhos, podendo expressar a busca pela manutenção de práticas reivindicadas pela identidade coletiva. Assim, as narrativas da comida sedimentam e transformam a identidade, o sistema de pertencimentos e as visões de mundo. A continuidade de saberes e práticas alimentares, bem como a manutenção do modo de fazer culinário, mostram-se como resultado importante da constante movimentação e construção de gostos, memórias, identidades presentes no sistema alimentar dos grupos. A comida, ao mesmo tempo em que está alicerçada em razões fisio-biológicas, por atender às necessidades nutricionais de cada corpo individual, também é elemento que constrói seu universo simbólico à medida que atende ao imaginário e às relações culturais dos sujeitos.
Referências AMON, Denise; MENASCHE, Renata. Comida como narrativa da memória social. Sociedade e cultura, 11(1), p.13-21, 2008. CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1982. DALLA NORA, Nilse Cortese. Quem chega, quem sai: a política de distribuição de terras no Rio Grande do Sul - o caso de Jaboticaba. Passo Fundo: Ed. UPF, 2006. OLIVEIRA, Nádia Rosana Fernandes de. Sabores na História: um estudo a partir dos saberes e fazeres alimentares de agricultores familiares de Jaboticaba, RS. 2009. 164f. Dissertação (Mestrado em Extensão Rural) - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2009. WOORTMANN, Ellen F.; WOORTMANN, Klaas. O trabalho da terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília: Ed. UnB, 1997. * Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é Nutricionista e Mestre em Extensão Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria (PPGExR/UFSM).
1. Jaracatiaá ou aracatiá Escrito por
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Em 29-06-2009 11:55 Fiquei emocionada com a referêencia ao doce de jaracatiá. Também faz parte da minha infãncia, no interior do Est. de São Paulo, região onde tb teve influência de dolonização italiana, que lá foram para o plantio do café...Agora a região está dominada plea cana-de-açúcar, cujo sistema de plantio e manejo (pulverização aérea, impede a frutificação. Lá em Rio das Pedras (cerca de 13 km de Piraciacaba, o doce era principalmente feito com os frutos, pequenos mamões "bravos", coom uma técnica rudimentr, mas indispensável para tirar as semente, tirar o "veneno" e depois coloc´-los numa clada para apurar....Dá muita saudade..... 2. Os saberes das técnicas Escrito por
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Em 10-07-2009 02:20 Eliana, o doce de jaracatiá deve ter muitas formas de preparo, não é. de modo geral, aqui ele é feito com as raspas do interior do caule, fazendo uma espécie de rapadura, e não tanto com os frutos, como aí tu refere. Mas que bom saber de tua preocupação com os sistemas de plantio que reduzem os cultivos destes saberes alimentares tradicionais. 3. parabéns Escrito por
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( http://www.svs.iffarroupilha.edu.br) Em 12-07-2009 12:09 Prezada Gostaria de Parabenizá-la pelo artigo que me despertou uma curiosidade imensa em ler tua dissertação de mestrado. Fizeste uma abordagem importante e que contribui para o resgaste de saberes que estão se perdendo. Lembrei do doce, ao qual minha mãe chamava de "Doce de Pau", e que na minha infância era responsável por ralar a planta para a fabricação do doce. Como posso ter acesso a tua dissertaçaõ na íntegra, pois aindã não está nos downloads da página. Abraço Escrever comentário
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