Acervo de textos
Coluna - Alimentação e Cultura
A comida como potência evangelizadora
A comida como potência evangelizadora |
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O trabalho caritativo é realizado pela Comunidade Fonte Nova: um grupo de oração vinculado à Igreja Católica. As primeiras atuações caritativas remontam há sete anos, quando o grupo iniciou a distribuição de comida aos "pobres", ao lado da histórica igreja pelotense, a Catedral São Francisco de Paula. Nesse ambiente urbano e público é que os beneficiários alimentavam-se, sentados em grupos no meio-fio da calçada. Após uma série de reclamações advindas de vizinhos - importunados com a sujeira e com a "poluição" ali deixadas pelos comensais - o grupo Fonte Nova mudou-se para uma casa, situada na Rua Dom Pedro II, dando ali continuidade a suas atividades, mas agora em um ambiente considerado apropriado, em espaço privado. Essas refeições, tanto no modelo anterior como no atual, acontecem todas as quartas-feiras, ao cair da tarde. A metodologia da pesquisa deu-se no envolvimento direto com os grupos - tanto doadores quanto beneficiários -, com os quais realizamos a observação participante no intuito de desvendar as práticas e percepções que os interlocutores constroem entre si, tendo a comida como portal de entrada.
Na entrada, um senhor grisalho, Seu João, membro do Fonte Nova, fornece uma ficha numerada para cada beneficiário, juntamente com os pratos e os talheres. Sugerimos aqui a relevância simbólica desse processo de passagem da rua para um ambiente interno, a casa, como uma dinâmica pela qual abandona-se, temporariamente, o universo das hierarquias implícitas, não-sabidas, e mergulha-se no ambiente interno, domiciliar, no qual ordens, códigos e normas imperam e regem as relações sociais (DaMatta, 1997). Para alguns beneficiários que vivem na rua, um novo universo se apresenta: pratos, talheres, mesas, copos, posturas são elementos que compõem, ainda que temporariamente, a nova ordem.
De forma semelhante, na comunidade Fonte Nova o sagrado é invocado e um pedido, seguido de um agradecimento, é realizado. Trata-se do pedido de benção à comida: "Que Deus abençoe essa comida e nos dê força e saúde" (Judite, Fonte Nova). Vemos aí um processo de sacralização do alimento, no qual, no ato da oração, na comunicação com Deus, propriedades positivas desejadas por todos são transferidas. Tais propriedades configuram-se, através da doação da comida, em dádiva, pois colocam-se a serviço e "em prol do laço social" (Godbout, 1998: 5), assumindo potencialidades que ultrapassam a força e a sustentação física. Nesse espaço, a comida é transformada pelos atores em um veículo de comunicação ou, melhor dizendo, de mediação entre sagrado e profano, tal como ocorre nos cultos afro-brasileiros, em que a comida ofertada aos orixás assume papel de mediadora "por excelência, das relações entre o mundo dos homens e o sobrenatural" (Corrêa, 2005: 71). Tem-se que o Fonte Nova doa essa comida aos atores sociais do "mundo carnal", mas é nesse ponto que dá-se a comunicação. Ao notar a presença constante e imprescindível do pão à mesa, obtive a resposta emblemática: "o pão é Cristo" (Ricardo, Fonte Nova). A mediação estabelecida aproxima-se do "princípio da incorporação", cunhado por Claude Fischler, que percebe a capacidade dos alimentos em ultrapassar a barreira oral para converter-se em substância íntima, que compõe em plenitude o corpo e a mente, o profano e o sagrado, permitindo absorver não somente nutrientes, mas também significados. Nesse sentido, quando "o pão é cristo", o teor simbólico desse alimento revela-se, mostrando que "os alimentos não apenas nutrem, mas também significam" (Fischler, 1995: 22). Incorporar Cristo pela comida, evangelizar: "ser Cristo" (Bruno, Fonte Nova). Parece-nos que, entre outros impulsos, o caráter evangelizador está presente nas motivações que impelem os membros do Fonte Nova a dar, a realizar a caridade, conforme Juleide, coordenadora do grupo: "a gente também quer evangelizar".
CORRÊA, Norton. A cozinha é a base da religião: a culinária ritual no batuque do Rio Grande do Sul. Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. In: CANESQUI, Ana Maria; GARCIA, Rosa Wanda Diez (Org.). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. DaMATTA. Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina, el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995. FRANGELLA, Simone. Corpos urbanos errantes: uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em São Paulo. Tese de doutorado. Universidade de Campinas. Campinas, 2004. GODBOUT, Jacques T. Introdução à dádiva. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, 13(38), 1998. * Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é graduando em História pela Universidade Federal de Pelotas e membro discente do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia. Este texto é uma análise dos dados preliminares obtidos em pesquisa etnográfica para sua monografia de conclusão de curso. * Cláudia Turra Magni é doutora em Antropologia Social e professora do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas.
1. Escrito por Flávia de Castro Silva Em 13-06-2009 16:06 Olá, faço parte do Convivium de Campinas/SP e trabalho com adolescentes em conflito com a lei, em uma instituição católica. Gostei muito da pesquisa e da forma como foi abordado o tema. Recebi a matéria por e-mail e, coincidentemente, esta semana, iniciei uma atividade que tem me deixado apreensiva: acompanhar diariamente o almoço dos adolescentes. A idéia é de que a refeição seja, como na experiência do Fonte Nova, um momento de evangelização e confraternização. No entanto, percebemos que precisamos avançar neste sentido: o ambiente tem ficado, frequentemente, mais tenso que acolhedor. São cerca de 25 garotos e garotas e temos 30 minutos para a refeição. Neste tempo também, alguns adolescentes, "voluntáriamente", precisam ajudar na organização e limpeza do refeitório - o que também, as vezes, gera tensões. A pergunta que tenho me feito (e que gostaria de lançar para os colegas da comunidade slow!)é: O que mudar para aproveitar o potencial tão rico deste momento? Tenho buscado, por exemplo, formas diferentes de agradecer pelo alimento. Além do desinteresse natural que muitos tem em relação a religião, é importante também que possam ser respeitadas em opções religiosas diversas. Agradeço muito sugestões neste sentido também. Parabéns pela pesquisa e pela matéria, a bibliografia está bem interessante. Obrigada! 2. Escrito por
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( http://www.eccsesobral.com.br) Em 21-11-2009 11:23 Estou pesquisando sobre doação de sopa aos moradores de ruas, pois estou querendo reaizar essa mesma ação humana aos nossos irmãos menos favorecidos... se puder me enviar por email sugestões de como fazer para que possamos iniciar esse sopão de uma forma digna e humana, sem ferir e descontentar a ninguem Escrever comentário
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