Ao sul do Estado de Sergipe, a cerca de 80 km de Aracaju, entre a maré (ou mangue) e o que restou da Mata Atlântica, está a Fortaleza do Aratu. Trata-se de uma comunidade quilombola, espalhada em 05 povoados no município de Santa Luzia do Itanhi: Rua da Palha, Pedra Furada, Cajazeiras, Bode e Crasto. O município, com todos os povoados, faz parte de um Território da Cidadania, o Território Rural Sul Sergipano.
Meu primeiro contato com a comunidade do aratu foi em 2005, durante a Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, em Brasília. Na ocasião, Daniel do Amor, o atual Secretário da Aqüicultura e Pesca de Santa Luzia, estava apresentando a moqueca de aratu na palha e falando, para quem quisesse ouvir, das condições precárias e da falta de apoio em que viviam os pescadores artesanais e marisqueiras do território. Falou também do aratu e de como a recente mortandade dos caranguejos estava ameaçando os estoques deste pequeno crustáceo.
De lá para cá foram mais de 06 visitas e a participação de representantes da comunidade em eventos nacionais e internacionais do Slow Food (Slow Fish 2007, Terra Madre 2006 e 2008 e Terra Madre Brasil). Durante o Slow Fish 2007 foi realizada uma campanha de apoio para a comunidade do aratu, e o lucro de todo cafezinho vendido foi revertido para a criação da Fortaleza.
A visita mais recente foi em março de 2009, em companhia de Mariana Guimarães, coordenadora das Fortalezas do Slow Food na América do Sul. O objetivo foi verificar o andamento do projeto e planejar os próximos passos em colaboração com a comunidade.
Ficamos hospedadas em Estância, a cidade maior na proximidade e que também faz parte do Território da Cidadania. Por lá, segunda-feira é dia de feira. Aliás, todo dia tem feira, mas a de segunda-feira é a maior, é quando as pessoas que vivem nos povoados vão para a cidade fazer as compras.
Fomos à feira para ver como é vendido o aratu e o que mais se encontra de interessante por lá. A venda do aratu na feira não nos inspirou. Aliás, não vimos muito aratu ou pescado. Verdura também quase não tinha. Em compensação nos defrontamos com uma abundância de frutas impressionante. Algumas que nunca tinha visto, como a fruta pão, e jacas enormes. Os feirantes devem ter achado engraçado, duas moças perguntando e fotografando as frutas, tão comuns por lá.
Infelizmente, como acontece na maioria das feiras livres no Brasil, não encontramos produtores. As frutas, por incrível que pareça, são coletadas no território, vendidas para intermediários que comercializam em Aracaju, depois compradas no CEASA e de volta para a feira em Estância. Uma lógica de mercado que não faz muito sentido.
Depois da feira uma reunião com o prefeito de Santa Luzia, e visitas pelos povoados. No dia seguinte, um almoço na D. Rosa, uma cozinheira de mão cheia do povoado Rua da Palha, e a busca de marisqueiras que estivessem voltando da maré com aratu. Só encontramos uma, que já estava quebrando (separando a carne) o aratu em sua casa.
A pesca do aratu é tradicionalmente uma atividade feminina. As mulheres, marisqueiras, vão juntas para a maré para pescar o aratu. Não é um trabalho fácil. No geral elas entram no mangue, com lama até o joelho e sendo atacadas por mosquitos, e cantando atraem o aratu. Com uma vara, colocam o aratu na lata e depois de algumas horas, voltam para casa com a lata na cabeça.
Por outro lado, a quebra e a comercialização do aratu, até o momento, é feita de forma individual. Cada uma cozinha e quebra o aratu em sua própria casa, em condições nem sempre adequadas. Depois se guarda em um freezer ou geladeira à espera do comprador, que geralmente é um intermediário. É com esta atividade que a maioria das mulheres garante parte do sustento da família, que na maioria dos casos, é muito grande. São estes compradores que ditam as regras e o preço, e são eles que ficam com o lucro.
O projeto da Fortaleza do Aratu nesta primeira etapa visa, principalmente, melhorar as condições de processamento e comercialização do aratu. Está se iniciando um projeto piloto em um dos povoados, para posteriormente ampliar a ação para todos os povoados envolvidos. Ações de fortalecimento do associativismo entre as mulheres, formação em boas práticas de manipulação, e noções básicas sobre economia solidária, comercialização e o manejo sustentável de recursos pesqueiros também fazem parte do projeto.
Uma reunião no povoado Cajazeiras, com a participação de 11 marisqueiras e o Presidente da Associação Quilombola, definiu os próximos passos. Ainda neste semestre dois representantes da Fortaleza irão participar de um intercâmbio com outra comunidade quilombola, que vive do manejo sustentável de recursos pesqueiros.
E o mais importante: em uma área cedida pela Associação Quilombola, que será reformada com o apoio da Prefeitura, serão instalados equipamentos básicos (fogão industrial, panelas, freezer, mesa de inox, pias) para o processamento coletivo do aratu na comunidade. Os equipamentos serão comprados com os recursos da Fortaleza, angariados durante o Slow Fish 2007.
No último dia visitamos algumas lojas em Aracaju para fazer o orçamento da compra destes equipamentos, em companhia de Josevania, filha e irmã de marisqueiras e agente de saúde do povoado Cajazeiras, que agora também é a referente local da Fortaleza.
É apenas o começo, ainda tem muito para ser feito. Para caminhar sozinhas, as marisqueiras ainda precisam de muito apoio financeiro e técnico. Força e determinação elas já tem de sobra.
Veja as foto desta visita e conheça um pouco mais do território da Fortaleza do Aratu:
Roberta Sá é cientista de alimentos e coordenadora dos projetos do Slow Food no Brasil. Quando é possível, escreve no blog Alimento para Pensar .
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