Pensar sobre o que
se come quando as pessoas mal delegam tempo para comer parece uma incoerência
da vida moderna. Na correria do dia-a-dia, a palavra "fast" (rápido) soa com
muito mais familiaridade do que algumas expressões praticamente perdidas no
tempo, como "horário de almoço" ou "jantar em família". Se o leitor pensar que
estamos fazendo uma crítica sobre seu modo de vida, acertou. É hora de repensar
sobre o que se come e o que se faz à hora das refeições.
Em vez de "fast food", renda-se à filosofia do movimento Slow Food. Para
começar, reserve um tempo para se alimentar. Pare para pensar sobre o que está
comendo, aprecie cada momento, não se deixe levar por modismos e,
principalmente, saiba o que está ingerindo. Do jeito que as coisas estão, cada
um lutando para sobreviver no mercado de trabalho, ter um momento especial à
hora das refeições gera até sentimento de culpa.
Priorizar o bem-estar próprio, dos amigos, vizinhos e familiares, estar atento
à biodiversidade e valorizar as tradições populares são as regras básicas do
movimento, que conquistou mais de 80 mil adeptos em todo o mundo. A cozinheira
Adriana Lucena é uma das entusiastas do Slow Food e lidera a versão potiguar do
movimento, que prioriza o alimento bom, limpo e justo.
"Bom no sentido de gostoso e bem feito, limpo para expressar que é livre
de substâncias químicas e justo com relação à forma como foi comercializado",
explica. Cozinheira de mão cheia, Adriana produz pimentas e recebe pessoas em sua Quinta da Aroeira,
em Jandaíra, para degustações de refeições que são feitas de uma forma "slow".
Ela procura resgatar ao máximo as tradições e caracteriza sua gastronomia como
retrô, "de retrocesso, de voltar às origens", diz.
E em sua busca constante de proporcionar às pessoas e a si mesma uma
alimentação histórica, a chef planeja cada detalhe do cardápio. "Os vegetais
são adquiridos na feira de orgânicos que acontece toda sexta-feira, por trás do
Mercado Petrópolis, ou diretamente aos produtores que eu conheço. Alguns têm
propriedades próximas da minha".
Para experimentar a comida feita e servida como um verdadeiro ritual
gastronômico, Adriana sugere muita calma e disponibilidade de tempo para quem
vai se render ao seu estilo. "Faço tudo com muita calma, no fogão à lenha,
resgatando receitas tradicionais".
Atualmente, a Quinta está sendo reformada para oferecer estrutura para quem
desejar passar uns dias com muita autenticidade no campo, aos cuidados da chef.
Na sua oficina de criação, ela coloca em prática tudo o que aprendeu com seu
pai, Jardelino Lucena, e relembra a adolescência em Jenipabu.
Contra a dinâmica da vida moderna
É bom esclarecer que o termo "slow" (lento, em inglês) não é aplicado para
classificar as atitudes sugeridas pelo movimento Slow Food com relação ao tempo
dispendido para as atividades realizadas. Na verdade, é uma contraposição a aceleração imposto pela vida moderna.
O professor Marco Antônio Rocha Júnior, do curso de turismo das UERN, é um dos
participantes do grupo potiguar. Ele cita que o conceito principal se refere à
alimentação com consciência e responsabilidade e destaca que uma das
preocupações dos associados é com a biodiversidade. "É uma busca constante que
objetiva fazer a ligação direta entre produtores e consumidores".
Nesse ponto, Adriana elucida uma questão muito interessante. Ela diz que a
preocupação com a origem dos alimentos pode ser colocada em prática com o
consumo de produtos com certificação. O consumidor não conhece quem plantou
mas, através de um selo, pode-se ter a certeza sobre o cuidado com que aquele
alimento foi produzido. "As gôndolas dos supermercados estão cheias de produtos
orgânicos".
Também ativista do Slow, o professor de italiano Michele Maisto explica o
porquê de a gastronomia ser a principal bandeira do movimento. "Gastronomia não
é só o que está no prato. É todo um processo que diz muito sobre um povo e seus
hábitos. O que se come é a última etapa".
Um jeito 'slow' de ser
O Slow Food tem o objetivo de valorizar as tradições populares e atua de modo a
resgatar saberes que correm riscos de ser extintos. A explicação é muito
simples: "o popular não é obrigatoriamente Slow Food, mas tem muito da
característica do sabor daquele povo e isso é uma identidade local que deve ser
preservada como cultura gastronômica", justifica Adriana.
Para isso o movimento internacional criou a Arca do Gosto e as Fortalezas de
produção. A arca é um catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e
divulga sabores quase esquecidos de produtos ameaçados em extinção. No Brasil,
um dos alimentos classificados é o arroz da terra, muito apreciado para a
feitura do arroz de leite e arroz doce com rapadura.
Para garantir a produção do arroz vermelho (nome como é mais conhecido o
alimento), foi criada uma fortaleza de produção no interior da Paraíba. Além de
promover o cultivo, garante-se a qualidade e o comércio (justo sempre).
"O alimento da arca deve ser a base da economia de uma comunidade.
Infelizmente, falta unidade aos grupos que produzem determinados tipos de
alimentos que poderiam estar na arca". Ela se refere a questão do
associativismo e lamenta a desvalorização do grude de Extremoz, um produto
tipicamente potiguar que conserva as formas rudimentares de produção. "Eu
espero conseguir contato das pessoas de Extremoz e tornar o grude um produto da
Arca do Gosto".
Comidas populares
As atitudes que conjugam as idéias "slow" são variadas. Adriana convida aos
interessados a se associar ao movimento, mas não é necessário fazer parte da
organização para praticar atos com base na filosofia que nasceu na Itália, em
1986, por Carlo Petrini. Michele Maisto diz que levar sacolas para as compras é
um ato "slow". "Quando eu era pequeno, aprendemos com minha mãe a levar as
sacolas para a feira".
O professor Marco Antônio sugere não comer em self-service. "Mas se não houver
outro jeito, que seja feito de um jeito slow, ou seja, aproveitando o momento
da refeição. É bom lembrar que tudo na vida deve ser feito com responsabilidade
e consciência", explica. Adriana Lucena sugere como ato "slow" ir até o Mercado
da Redinha para comer ginga com tapioca. "Existe outra coisa tão tipicamente
natalense como essa combinação?".
Ela é incansável na questão do resgate e pela valorização das formas
tradicionais de alimentação e sugere os pratos à base de carneiro, porco, e
outras iguarias tipicamente regionais, do Mercado Público de Ceará-Mirim - "se
a pessoa vai de trem é melhor ainda" -, e o picado de Bibi no Mercado
Petrópolis - "impossível resistir ao sabor e à forma com a refeição é
preparada. A gente pergunta de onde vem e ela conta que compra o carneiro a um
amigo, que cuida pessoalmente da criação".
Ser "slow" é ser verdadeiro, apreciar cada detalhe da vida com se fosse um
grande pilar de sustentação. É comprar um peixe fresco ou congelado por
empresas sérias, que se preocupam com a qualidade do pescado, chamar os amigos
e cozinhar com alegria, temperando com amor. Ser "slow" é ser lento no que diz
respeito às tendências conformistas e ser rápido para reter o é que
verdadeiramente importante.
Serviço: Quinta da Aroeira. Povoado do Cabeço, Jandaíra.
Tel.: (84) 9964-9922.
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Convivium Potiguar - Natal (RN) Líder: Adriana Lucena
Rua Raimundo Chaves, 2189, Bloco B, ap 201
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(84) 99862187
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