|
“Não há pecado afora a estupidez”. (Oscar Wilde)
Muito se debate sobre o roteiro do filme A Festa de Babette, (Babettes Gæstebud), produção franco-dinamarquesa de 1987, dirigida por Gabriel Axel. Roteiro adaptado da obra de Karen Blixen, cujo pseudônimo era Isak Dinesen, o anonimato justificava-se em uma época na qual mulheres escritoras não seriam bem vistas aos olhos da sociedade chauvinista de então. O filme, pela ótica da gastronomia, culminando pelo banquete servido por Madame Babette Hersant, induz que inexiste a felicidade sem pecado em uma comunidade puritana no final do século XIX, após já haver igualmente sugerido a auto-repressão moral em decorrência do pecado, cometido por Felippa no relacionamento com o militar Lorenz Lowenhelm e com Martine na percepção do misto de vaidade e orgulho em seus ensaios de canto erudito em parceria com Achilles Papin. Não necessariamente na mesma ordem elencada acima, pode-se dizer tratar-se de uma história filosófica, com forte vertente de religiosidade, como bem define Nietzsche(1): “Onde quer que a neurose religiosa tenha aparecido na terra, nós a encontramos ligada a três prescrições dietéticas perigosas: solidão, jejum e abstinência sexual...”.
2. A FELICIDADE SEM PECADO
Segundo a Filosofia, a felicidade pode ser
conceituada de diversas formas, sendo vários os pensadores em
diferentes épocas que se dedicaram a explicá-la. O roteiro, abusando
dessa riqueza conceitual, buscou contrapor a noção do pecado com a
idéia da felicidade, atingindo o climax no banquete elaborado por
Babette.
Os tímidos gracejos sensuais trocados entre Felippa e Lorenz têm, na
concepção Freudiana de felicidade, o seguinte teor, nas palavras de
Herbert Marcuse: "... a sexualidade fornece a fonte original da
felicidade e da liberdade e, ao mesmo tempo, a razão de suas restrições
necessárias na civilização(2)." Teria sido com essa concepção, um tanto
quanto exacerbada, que Felippa acabou por mitigar o desejo por Lorenz,
o que provocou o seu afastamento definitivo.
Já Martine desistira de uma vida glamurosa na corte parisiense, após
momentos de enlevo com o canto lírico, desfrutado juntamente com Papin;
a felicidade supostamente havia cedido lugar aos desígnios do pai,
pastor protestante líder da comunidade religiosa local, a quem ela
dedicara sua existência até a morte do religioso. Novamente, o sentido
filosófico da permuta da felicidade pela alegada retidão em direção ao
não pecar se mostra presente, desta feita no Absolutismo Kantiano, que
similarmente se refere à conduta moral conforme à lei, op.cit.,
p.100.: " Kant critica as concepções que depositam a felicidade nos
sentidos ou que fazem dela um objeto da razão pura. Para ele, "a
felicidade é sempre uma coisa agradável para aquele que a possui", mas
ela supõe, "como condição, a conduta moral conforme a lei".
Dentro deste contexto, em uma análise puramente filosófica, o roteiro
poderia ser interpretado de forma totalmente diversa: o objetivo não
seria a realização dos apelos do pai, mas sim a satisfação
individualizada e egoísta de Martine e Felippa na obtenção de suas
felicidades, aquela ao desistir da carreira nos teatros e esta ao não
desposar o militar. Explica-se tal paradoxo pela simples assumpção
literal dos conceitos já citados dos pensadores inter-relacionados a
cada caso particular. Para Felippa, o amor com Lorenz não atingiria
assim a sua plenitude, eis que ela sofreria em função das limitações
freudianas restritivas necessárias na civilização, o que na história
representaria um desgosto profundo ao amor paterno. De outro lado,
Martine infringiria o seu próprio conceito de lei moral do pecado, em
consonância com o entendimento de filósofos modernos como Jean Paul
Sartre, que declaram não haver moral geral e, por isso, também ela não
alcançaria a glória da felicidade, padecendo sabedora de sua
infidelidade aos ditames do pai.
3. O BANQUETE DE BABETTE E A FELICIDADE SEM PECADO
Sem a presença física do genitor dominante, mas
ainda com os arraigados severos dogmas religiosos, Martine e Felippa
permitem que Babette elabore um jantar em memória ao aniversário de
falecimento do pastor chefe da família. Nos dizeres de Rubens Ewald
Filho(3):
Babette conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Sabia
também que, depois de comer seus pratos, as pessoas não seriam as
mesmas. Os convidados para o banquete também intuíam isso, mas tinham
medo de sucumbir aos prazeres do palato, como se ele fosse impuro,
demoníaco até. Na festa de Babette, a "bruxaria" tem efeito
pacificador: os sabores amaciam velhas rixas, a dureza do corpo e até
das rugas se desfaz, alisadas pelo paladar. As máscaras caem, e os
rostos, endurecidos, ganham expressão, cor, sorrisos, simpatia. Ganham
humanidade. O céu estava ali, naquela mesa, e era possível perceber
isso sem morrer. Conclusão? O paraíso terreal existe nos raros momentos
de magia e encantamento, aqueles em que nos tornamos crianças outra vez.
Este autor discorda completamente do famoso crítico cinematográfico no
tocante a este particular. Pelo roteiro, com o andamento dos
planos-seqüência durante o banquete, a intenção dos convivas de não
pronunciar uma palavra a respeito do jantar à mesa e de desfazer
mentalmente a sensação do paladar foi quebrada aos poucos tão somente
sob a influência de Lorenz ao comentar constantemente as qualidades das
iguarias e bebidas servidas. Sua posição de destaque na casta
sócio-cultural sobre os demais membros da comunidade revestiu-se de uma
relevância assaz surpreendente na mudança das concepções religiosas
extremistas dos puritanos. Em verdade, não foram os pratos finamente
elaborados por Babette que tiveram o condão de alterar suas ideologias
do pecado, até porque eles sequer saberiam apreciá-los com o mesmo
conhecimento cultural de Lorenz, como diria Savarin(4): "Os animais se
repastam; o homem come; somente o homem de espírito sabe comer"; é
óbvio que faltava aos membros daquela comunidade o "espírito" cultural
gastronômico. Ao final da ceia, regozijaram-se ao seu modo com as
delícias do banquete, demonstrando uma tolerância atípica de uma
dogmática religiosa protestante puritana; nada mais do que um simulacro
cinematográfico a fim de conferir beleza e magia ao poder da culinária
de Babette.
Findo o evento, é esperada a partida definitiva de Babette para a
França, já que agora supostamente o dinheiro ganho com o prêmio na
loteria seria o bastante para encerrar suas atividades como doméstica
na Dinamarca. Após ter revelado seu segredo às irmãs de ter sido Chef
do renomado Café Anglais em Paris e que os pratos da suntuosa refeição
eram os mesmos lá servidos, impressiona-as mais ainda por lhes dizer
que todos os seus valores foram gastos com o banquete e que, por isso,
não mais viajaria, confidenciando-lhes que não teria razões para
regressar, já que todos os seus mortos estariam enterrados. Ao ser
reconfortada, lhe é dito que continuaria a servir pratos magníficos aos
anjos no céu e que nunca seu valor como Chef seria esquecido.
O parágrafo anterior bem demonstra a ortodoxia religiosa ainda presente
na mentalidade das irmãs puritanas. A notória depressão psicológica de
Babette seria curada com promessas de cunho religioso, como o
reconhecimento que não fora alcançado no mundo temporal o seria na vida
eterna; ou seja, seu destino terreno já estava demarcado e finalizado,
restando-lhe aguardar a passagem para o outro lado a fim de poder
servir aos anjos com sua culinária. O roteiro não vai mais além, mas
conclui a aceitação por Babette de seu destino como "Chef do céu"; ela
passa, assim, da condição de ex-pecadora, para a de expectadora, aquela
cuja vida irá esperar passar.
Este é um ensaio de Gustavo Ribeiro Langowiski
(1) Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal: prelúdio a uma
filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p.53.
(2) Dicionário básico de filosofia. Hilton
Japiassu. Danilo Marcondes. 3ª.ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 1996, p.101.
(3) Ewald Filho, Rubens. Lebert, Nilu. O cinema
vai à mesa: histórias e receitas. São Paulo: Editora Melhoramentos,
2007, p.100.
(4) Savarin, Brillat. A fisiologia do gosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.15.
Envie este texto por Email
Sistema de comentários: AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6 AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com |