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Coluna - Alimentação e Cultura
“Nós cultuamos todas as doçuras”: a contribuição negra para a tradição doceira de Pelotas
“Nós cultuamos todas as doçuras”: a contribuição negra para a tradição doceira de Pelotas |
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O que impulsionou esta pesquisa sobre a contribuição negra - sujeitos que partilham, adaptam e reinventam o patrimônio cultural afro-brasileiro - para tal tradição foi justamente sua invisibilidade, afirmada no discurso, reiteradamente repetido, de que "os negros só mexeram os tachos".
Considerando, ainda, também sob a rubrica doce de Pelotas, a tradição dos doces de frutas, ou coloniais, vinculados à influência dos imigrantes franceses, alemães, pomeranos e italianos na produção de doces de passas e compotas de frutas, observa-se a mesma invisibilidade com relação à contribuição da etnia negra. Pensar que contribuições das diversas etnias compõem o mapa étnico da tradição dos doces de Pelotas significa, aqui, buscar analisar a dimensão das matrizes culturais que constituem, diversificam e atualizam essa tradição. Já no depoimento de nossa primeira interlocutora, uma mãe-de-santo, novas perspectivas se apresentariam para a investigação.
A partir desse relato, o terreno das investigações transportou-se para o universo do povo de religião, esfera dos rituais e das crenças afro-brasileiras, dos pais-de-santo e suas numerosas famílias, circuito de sociabilidade pontuado, entre outros, pelos batuques das terreiras de Nação. Esse último termo é uma denominação utilizada pelos interlocutores deste estudo para se referirem ao Batuque, religião de culto aos orixás, praticada pelos africanos e seus descendentes, que se instalaram no Rio Grande do Sul como escravos. Neste conjunto de crenças e rituais, alimento e comida são elementos litúrgicos fundamentais, o que se afirma no dizer de que o "bom batuqueiro se faz na cozinha". Comer e alimentar são ações que mediam qualquer relação entre os orixás e os homens, o sagrado e o profano:
Buscando repertoriar os significados daquilo que representaria a comida e, mais especificamente, os doces, para o povo de religião, a observação de campo voltou-se aos rituais (cerimônias de iniciação, festas e demais ritos de obrigação religiosa). Foram também realizadas entrevistas semi-estruturadas com pais-de-santo e iniciados. No batuque, a festa e os doces oferecidos aos orixás (e alguns também a humanos) ficam dispostos no quarto-de-santo, onde estão os alcutás, assentamentos dos orixás em pedras especificas de cada divindade. A pequena peça fica repleta de oferendas: flores, frutas e as frentes dos orixás. As frentes são as comidas prediletas de cada santo, bem cozidas e caprichosamente preparadas, oferecidas na frente de suas imagens. Elas fazem referência à intimidade, ao aconchego do lar, compondo o universo socialmente elaborado e permitindo a integração de coisas que estavam separadas. O axé materializado na comida está sempre presente no quarto-de-santo, mesmo quando não há festa: é a garantia de zelo constante dos orixás por seus filhos.
Essas festas são abertas ao público, recebendo convidados de outros templos, com os quais a família-de-santo anfitriã compartilhará desde o salão e as rezas, as comidas e alguns dos doces dispostos nos aposentos dos orixás. São os batuques as noites de requintada sociabilidade do povo de religião, eventos que coroam toda uma rotina de devoção e culto constante aos deuses. Segundo Sylvio do Xangô, a elaboração do quarto-de-santo resume-se da seguinte forma:
Todos os agrados, tudo o que se oferece, é oferecido no sentido de aproximar cada vez mais deus e devoto. E o elemento que faz essa ligação é a comida, cozida, feita dos melhores ingredientes, escolhidos com minúcia, picados delicadamente e dispostos da forma mais agradável possível aos olhos e ao paladar. A comensalidade vai unir homens, deuses e natureza. Conforme Sylvio do Xangô, Na verdade, a festa que a gente faz para os orixás e oferece para o povo, é para os orixás compartilharem com a gente aquela fartura. O que fica para os orixás é o axé, aqueles doces que tu viste no quarto de santo são repartidos com o pessoal da casa. Tu comes a noite inteira. A reciprocidade é um princípio sempre presente no discurso dos sacerdotes: tudo que se oferece representa o que se quer em retribuição. Os doces, junto com as frutas, nesse caso, ultrapassam o sentido do alimento enquanto fonte de energia: não se quer mais apenas a presença do deus, mas agradá-lo, acarinhá-lo.
Reforçando a especificidade das oferendas de comida, os batuques realizam uma diferenciação quanto ao que se dá aos deuses: *há a festa de quatro pés, quando há a obrigação de corte de animais de quatro patas, sendo oferecidas suas carnes (aí não se encontram doces no quarto-de-santo); *há o batuque dos peixes, quando são oferendas apenas as carnes desses animais de sangue frio; e por último, no dia de encerramento das obrigações, *há o batuque de terminação, também chamado de batuque dos doces. Além desses, há também a chamada quinzena dos doces, batuques realizados sem que tenham sido feitos cortes de animais.
O que é complementado pela observação de sua filha-de-santo, Daniela da Oxum:
As bandejas de doces finos que representavam o requinte dos saraus e banquetes na opulência de Pelotas carregam, ainda hoje, esse significado. Na cosmovisão batuqueira, esse significado de requinte que os doces - tanto de bandeja, quanto coloniais - assumem se repete. No entanto, de um modo que extrapola o uso da tradição doceira material na sociabilidade pública entre as famílias-de-santo, pontuando o caráter imaterial desse patrimônio, nas mais íntimas relações entre deuses e homens, a partir dos significados e valores que carregam termos como doçura e amargura nos rituais e cerimônias.
Ao mesmo tempo, a doçura dos quartos-de-santo, das oferendas e dos mercados (comidas que os visitantes dos batuques levam para casa, levam nelas o axé da casa) se conecta com as redes de doceiras do centro da cidade, ou com uma vizinha que aprende a fazer doces finos e passa a fornecê-los ao povo de religião, já que, mesmo que nenhum filho-de-santo conheça os segredos da doçaria pelotense, "todo reino tem uma doceira".
A gente aqui em Pelotas é que gosta de enfeitar com doce. Quem é que não gosta de ganhar uma bandeja de doces?... Coisa bem linda é uma bandeja com ninhos! (Joana d'Oyá) * Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e membro da Equipe do Inventário Nacional de Referências Culturais referente à produção de doces tradicionais pelotenses. Flávia Maria Silva Rieth , doutora em Antropologia Social e professora da UFPEL, é coordenadora dessa Equipe, que também é composta por: Fábio Vergara Cerqueira, Maria Letícia Mazucchi Ferreira, Francisca Ferreira Michelon (consultora em imagem), Mario Osorio Magalhães (consultor em história) e Tiago Lemões da Silva. * Nota da Editora: A cada ano, realiza-se, em Pelotas, a Feira Nacional do Doce (FENADOCE). Em 2008, a Festa acontece de 4 a 22 de junho: vale a pena conferir.
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