Acervo de textos
Coluna - Alimentação e Cultura
Polenta: marcador étnico na reprodução da italianidade
Polenta: marcador étnico na reprodução da italianidade |
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Os fluxos migratórios da Itália para os diversos países que receberam italianos ao longo desse período foram estabelecidos por redes sociais, construídas entre regiões da Itália e alguns destinos. Assim, observa-se a preferência dos imigrantes em se dirigirem a locais onde já estavam estabelecidos conterrâneos seus. Dessa forma, temos que o fluxo migratório para o Brasil foi, em grande parte, originário da região do Vêneto.
Ao emigrarem, os italianos levavam na bagagem sua cultura: costumes, hábitos alimentares, modos de ver a vida, língua, entre outros. Ao chegarem a seus destinos, tentavam reproduzir sua cultura, dando origem a adaptações e novas significações de antigos hábitos. No Brasil, em novas condições de vida, novos elementos foram introduzidos às práticas dos imigrantes italianos, assim como eles imprimiram suas marcas na cultura local. Atualmente, percebemos a força da imigração italiana nas culturas regionais. Entre os italianos que migraram para o Brasil, a polenta destaca-se como alimento característico de grupos familiares provenientes de regiões rurais do Vêneto. A polenta manteve-se como alimento de base entre colonos descendentes de imigrantes da região Sul do Brasil. Feita a partir de farinha de milho (originário das Américas), a polenta permaneceu como alimento cotidiano das famílias camponesas de origem italiana. A receita básica de polenta utiliza fubá, água e sal, sendo consumida cozida, na chapa ou frita.
Durante minha pesquisa, realizada junto a um determinado grupo familiar de descendentes de imigrantes italianos, percebi, nas falas dos familiares de diferentes gerações, o lugar central ocupado pela polenta, não só entre os mais antigos, mas também nas novas gerações. Mas o valor atribuído a esse alimento é diferente para cada geração.
Assim, como vimos anteriormente, num primeiro momento a polenta vem da Itália para o interior do Rio Grande do Sul e permanece na mesa do imigrante italiano como alimento de base, que dá força para o trabalho diário na lavoura. Para essa primeira geração, a subsistência é a principal característica, assim como as relações próximas com vizinhos e familiares. Aqui a polenta é um alimento cotidiano, forte.
Esse contato provocou também alterações na culinária familiar. Além disso, esse segundo momento é também marcado pela aproximação entre campo e cidade, bem como pela desvalorização (relativa) dos produtos do campo pelos da cidade. Nesse segundo momento, a polenta deixa de ser alimento cotidiano, dando lugar ao arroz e feijão.
* Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é antropóloga. A pesquisa relatada aqui foi realizada no processo de elaboração de sua monografia de conclusão de curso de graduação em Antropologia, pela Universidade de Brasília. A família cuja trajetória desde a vinda da Itália foi pesquisada é sua própria família, os Dalla Costa. * Nota da Editora da Coluna Alimentação e Cultura: no Rio Grande do Sul, desde 2001, a cada 20 de maio comemora-se oficialmente o Dia da Etnia Italiana. A data é referência aos primeiros imigrantes que, em 1875, chegaram ao Estado, vindos do Vêneto. Em muitas localidades em que atualmente vivem os descendentes dos imigrantes italianos, neste dia são realizadas festas, em que são lembrados os antigos costumes. Como uma forma de homenagear a todos esses colonos e estimular o cultivo de suas tradições - especialmente as culinárias -, mantidas por essas famílias rurais, fazemos aqui menção ao Filó Comunitário do Jacarezinho. A festa realiza-se a cada ano, no 20 de maio, no Jacarezinho, comunidade rural situada no município de Encantado, Vale do Taquari, Rio Grande do Sul.
1. Escrito por Fernanda Barbosa Em 14-05-2008 22:12 Parabéns a autora, pois o texto consegue dosar a competente análise a que se propõe (os caminhos da família imigrante e a ligação da polenta no contexto histórico e social) e, ao mesmo tempo, trazer um elemento bastante pessoal. A linha de pesquisa escolhida é corajosa e foge do senso comum, o que demanda dedicação e atrai o interesse. Escrever comentário
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