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"A inteligência afetiva salvará o planeta". Em visita ao Rio de Janeiro, o líder do movimento Slow Food, Carlo Petrini, se reuniu com o convivium carioca
para saborear com reflexão sobre a "multidisciplinar e complexa ciência
da gastronomia". O encontro aconteceu no restaurante O Navegador, da chef Teresa Corção, na quinta-feira, 3 de janeiro de 2008. Ao lado
da chef Margarida Nogueira, responsável pelo grupo na cidade, a dupla
ofereceu um almoço cultural seguido da exibição do documentário Seu
Bené vai para a Itália (Manoel Carvalho).
Cerca de 30 associados e convidados participaram do evento, que apresentou as ações do Projeto Maniva
para 2008 como o programa infantil Bagunça na Cozinha, com previsão de
estréia para março, no Canal Futura; e a participação do documentário
no Festival de Berlim e no Slow Food Film Festival. Teresa abriu o encontro compartilhando como o Slow Food
contribuiu para expandir sua visão sobre a comida e, consequentemente,
a forma de executar seu trabalho. "Fiquei emocionada ao perceber que o
alimento é o fio condutor da vida de muitas pessoas. Elas
se identificam através das tradições alimentares, que não é engessada,
mas é viva", diz Teresa se referindo à participação no evento Terra Madre. A partir deste momento, a chef conta que passou a utilizar a comida como um instrumento: "minha comida é minha pátria".
A
chef Margarida Nogueira, responsável por trazer o movimento para o
Brasil, se emocionou ao contar como conheceu a organização. Os filhos a
incentivou a usar o computador e bastou uma pesquisa na internet para
descobrir o Slow Food. Hoje, ela comemora a criação de 13 convivum no país, e sonha em ver o número de associados se multiplicar.
Saboreie lentamente, coma com reflexão
Após
a exibição do documentário - que relata a visita de Benedito da Silva,
produtor de farinha no Pará, ao evento Terra Madre (Itália), o grupo se
reuniu para degustar o menu, assinado por Teresa. De entrada, cubos de
peixe no tucupi e jambu e vatapá; o prato principal foi carne seca
desfiada com tutu quibebe, couve crocante, anéis de cebola e caldinho
de feijão. E de sobremesa, mini panna cota Brasil com tartar e coulis
de frutas brasileiras. Mas antes de partir para o último prato, Carlo
Petrini fez uma pausa para reflexão, destacando a importância da
formação, da convivialidade e a defesa da economia sustentável.
O
movimento criado em 1989 está presente em 150 países e conta com mais
de 100 mil associados, além da rede paralela formada por camponeses,
artesãos, pequenos produtores e cooperativas, totalizando cerca de 3
milhões de pessoas. "Não é um movimento estruturado. É livre e
criativo", defende e diz que o Slow Food tem uma idéia forte que o
sustenta: "a gastronomia é uma ciência multidisciplinar e complexa".
Com
uma fala tranqüila e firme, Petrini justifica sua afirmação, chamando à
responsabilidade que a comida implica. Segundo ele, a gastronomia está
em evidência nas revistas, em programas de TV, jornais, livros e
internet, mas de uma maneira restrita. São receitas, receitas e mais
receitas. "Isso é uma pequena parte que, se continuar crescendo, vai
virar uma pornografia alimentar porque falta uma outra parte da
gastronomia", declara.
Petrini
destaca que pequenos produtores e pessoas que preservam tradições, como
o senhor Bené faz no Pará com sua farinha, são fundamentais para a
sociedade. "Gastronomia se faz com histórias como essas, que é cultura
e representa uma maneira de viver". E através da Universidade da Ciência da Gastronomia,
na Itália, sua proposta é apresentar a comida de forma
multidisciplinar, englobando biologia, história, antropologia,
economia, física, química e genética. "Não podemos falar de alimentação
sem estudá-la de forma complexa. Por isso, temos que nos libertar desta
pornografia alimentar", completa.
Inteligência afetiva
Citando
uma pesquisa sobre o ecossistema do planeta realizada durante 4 anos
por 1.400 pesquisadores, Petrini informa que o grande responsável pela
destruição do planeta é a produção de alimentos. "Estou falando de
gastronomia. Essa destruição ambiental é devido a uma produção
massiva", e continua: "consumir, consumir, consumir... O primeiro
conceito do consumo é desperdiçar". O líder, de 58 anos, que é
jornalista premiado e autor de cinco livros sobre o tema, defende a
economia de subsistência em oposição à economia massiva, de capital.
"Só a economia local salvará o planeta".
Segundo
Petrini, outro elemento importante quando se fala de comida é que se dá
importância à inteligência racional, mas a Terra é inteligência
afetiva. "O racional pensa sempre em lucro, não pensa em amor e
solidariedade". Ele afirma que a auto-estima é que move o mundo. Com um
discurso entusiasmado e contagiante, ele diz que é hora do Slow Food no
Brasil avançar, alcançar jovens, crianças e pessoas de todas as idades
porque "comer é o primeiro ato agrícola".
Co-produtores
De
acordo com ele, a palavra consumidor não é adequada para designar as
relações de mercado, baseada nesta inteligência afetiva. Petrini
justifica que a palavra passou ser utilizada a partir da Revolução
Industrial e está relacionada com excesso e desperdício. O co-produtor
é aquele que paga o preço justo, respeita quem trabalha na terra e dá
valor ao alimento. "O primeiro ato de amor é a amamentação, que reforça
os laços entre mãe e filho. É um momento de prazer trocas. O mistério
da vida está aí. Quem não dá importância à alimentação, perde metade de
sua vida. Precisamos dar valor à comida neste momento histórico de
combate à economia destrutiva, e sair em defesa de milhões de
produtores", declara. Petrini encerra sua mensagem reforçando o
objetivo do movimento Slow Food, que é a educação, o convívio
e a preservação da economia de subsitência. "Podemos dar nossa
contribuição lentamente, slow", conclui.
*Texto de Juliana Dias originalmente publicado no Informativo Malagueta
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