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O cafezinho que fala

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cafezinhoO cafezinho faz parte do conjunto constituído pela comida e, como tal, "fala" de práticas, valores e possui dimensões simbólicas interessantes. Ele é parte de uma linguagem.

Tomar cafezinho junto significa compartilhar, tornar um momento ritual, marcá-lo como algo que nos aproxima, reforça laços. Pode ser também uma pausa no cotidiano.

Quando se recebe alguém em casa, principalmente quando não é alguém muito conhecido, e se "passa um café" novo, esse é um claro sinal de boas vindas: a presença da pessoa é desejada. Inversamente, servir um café morno ou requentado é ofensivo, significa que a pessoa deve se retirar logo.

O cafezinho fala de práticas e preferências culinárias. No Acre e em Goiás, por exemplo, o termo cafezinho supõe café com açúcar, porque a bebida já é coada com açúcar, "com mel", o que faz com que, necessariamente, o café seja sempre consumido com açúcar.

O cafezinho "fala" de níveis distintos de consumo, sinaliza situações de vida precária, de penúria e até precisão. Isso quando, por exemplo, estratégias são empregadas para substituir o pó de café por cevada ou por milho ou feijão torrados. Ou quando o pó de café, depois de coado, é seco e reutilizado. Ou ainda, situação mais crítica, quando o café tem que ser substituído por chá de plantas coletadas, como capim santo ou cidró.

cafezinhoEle também fala do lugar em que é servido. Pode ser um cafezinho mantido quente em máquina, num restaurante de beira de estrada, já com açúcar e servido em copo de vidro ou plástico. Ou, ao ser servido em um restaurante de bom nível, o cafezinho será uma variedade gourmet, coado na mesa em coador de cristal, puro, acompanhado com açúcar mascavo ou branco, adoçante, biscoitinho, casca de laranja cristalizada, chocolate com menta, cremes, degustado em xícara delicadamente ornada com um guardanapo de renda.

O cafezinho também fala de relações de gênero. Como pesquisadora, em visita a uma conceituada fazenda goiana, em Serranópolis, estranhei muito o hábito tradicional de os homens serem servidos na sala principal da casa, ao passo que as mulheres fomos convidadas a tomá-lo na cozinha. O bule, xicrinhas esmaltadas, o "açúcar preto" (mascavo) e o café eram os mesmos, mas a antiga separação espacial por gêneros era evidente: lugar de mulher é na cozinha!

Ainda, cafezinho designa o espaço em que é servido. Assim, o Cafezinho do Departamento de Antropologia da UnB - na verdade, uma passagem adaptada com mesa e poltronas, doadas pelos professores - constitui o lugar em que são comentados os últimos lançamentos de livros e questões teóricas, onde alunos são orientados informalmente, mas também é o espaço em que casos e causos são confidenciados. Já no Cafezinho da Câmara dos Deputados e nas chamadas "bocas malditas" das cidades... bem, outros assuntos são discutidos...

cafe-do-brasilO cafezinho também fala de identidade. Na fronteira gaúcha, por exemplo, no "tempo dos antigos", ao lado do hábito de tomar chimarrão, tomava-se o tradicional café de chaleira: o pó do café era colocado dentro da chaleira com água; levantada a fervura, um tição incandescente era introduzido para decantar o pó. Atualmente, enquanto o café de chaleira praticamente desapareceu do cotidiano das casas urbanas e fazendas, a prática é, ao lado do chimarrão, nos Centros de Tradições Gaúchas em todo Brasil, altamente valorizada como símbolo de identidade gaúcha: esse é o cafezinho servido, numa clara adaptação da tradição aos novos tempos.

Por outro lado, ainda hoje, em lugares tradicionais no Sul, cafezinho e chimarrão falam de níveis de relações diferenciadas, ou de proximidade de relações: a parentes, amigos próximos, íntimos, oferece-se chimarrão; já aos estranhos, aos "de fora", um cafezinho recém-coado ou morno.

Já entre os ítalo-brasileiros, do mesmo modo que ocorre com a cachaça - que no verão é servida com gelo, limão e açúcar, a caipirinha, enquanto que no inverno o serrano é servido em temperatura ambiente, com limão e açúcar, "aquecido" com canela -, o cafezinho fala de estações do ano. Se na primavera e verão ele é servido "puro", no outono e principalmente no inverno, ele é "aquecido" com graspa, fazendo face às baixas temperaturas e aquecendo as relações entre as pessoas.

Finalmente, se o cafezinho constitui uma linguagem, nem sempre o uso dos mesmos termos, traduzidos, implica em significados análogos. No Brasil, via de regra, "café forte" significa o uso de maior quantidade de pó, de variedades consideradas fortes - como a robusta - e com torrefação forte: o cafezinho é aí pensado como estimulante. No entanto, cuidado! Essa expressão não deve ser confundida com o "café fuerte" tal como é conhecido em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, uma mistura de pó de café industrializado à qual é misturado sangue de boi desidratado e pulverizado. Esse cafezinho, consumido basicamente pelos homens adultos, é pensado como estimulante, mas também como bebida energética e afrodisíaca!


* Ellen Fensterseifer Woortmann é antropóloga, professora da Universidade de Brasília (UnB) e apreciadora de um bom cafezinho.

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Comentários (3)
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1. lembranças de infância
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Em 19-11-2007 17:12
Moro numa pequena cidade no NE do estado de São Paulo BRASIL. Com meus 65 anos de existência, lembro que quando crianças, minha casa sempre bem frequentado por amigos e fregueses nunca faltava o bom cafezinho a ser oferecido a todos e um 'causo", no BAR SÃO PAULO, do seu Fazico.
2. Estranhar o cotidiano
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Em 21-11-2007 09:00
Ellen 
É engraçado como às vezes não percebemos os vários níveis de diálogos entre os "cafezinhos", um hábito já tão costumeiro entre nós! 
Obrigada por nos fazer perceber como somos "domesticados"! 
Beijos 
Janine
3. Duvida
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Em 04-04-2008 14:11
O artigo cafezinho que fala de Ellen Fensterseifer Woortman, relata no ultimo paragrafo que na Bolivia existe um cafe que e misturado com sangue de boi.Gostaria de saber se existe algum cafe fabricado no Brasil que tambem seja misturado com sangue de boi.

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