Acervo de textos
Coluna - Alimentação e Cultura
A quinta do caranguejo
A quinta do caranguejo |
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A fonte de tal iguaria pode ser de perto ou de longe. Chega em um amarrado chamado corda, ainda vivo. É morto com uma faca de ponta fina. Se colocado vivo na água quente, soltam-lhe as patas. Antes de cozinhar, é lavado, esfregado, raspado. Depois, é escaldado. Durante o cozimento, sua cor vai mudando, até que chega "ao ponto". O sabor é ressaltado pelo acréscimo de ervas, pimentas e leite de coco. Da cozinha, é levado, em bacia plástica ou de barro, por entre mesas, coberto pelas folhas verdes do coentro, regado com o leite de coco, fumegante. Despejado sobre a mesa o conteúdo da bacia, dá-se início ao ritual propriamente dito. São várias mãos, a um só tempo, em busca do maior caranguejo. Em seguida, com pancadas firmes e ansiosas, as carnes são tiradas fora, para o prazer dos comedores. É assim a quinta do caranguejo, que ninguém sabe como começou e todos reivindicam onde começou. Há muitos anos tem sido associada a um nome, "Chico do caranguejo", a barraca de praia que colocou caranguejo como sobrenome de um tal Francisco, que agora tem nome e endereço. É o cidadão do caranguejo na cidade de Fortaleza, desde 1987. Antes disto já havia uma turma que se reunia na Praia do Futuro antiga, no Toninho, no Mendes, Itaparicá e tantas outras. Turma de amigos, familiares, que largavam suas casas e dedicam-se, noite adentro, a este momento, que se repete a cada semana. Às quintas feiras a cidade se transforma. No litoral, as barracas acolhem nativos e estrangeiros, antigos e novos iniciados no ritual do caranguejo. Cedo começa o movimento da formação dos grupos de rapazes e moças, homens e mulheres, de pouca, meia e muita idade, que, em caravana, enfileiram-se rumo à praia, nas noites de quinta-feira, para o ritual. Há a turma da escola, da igreja, do bairro. Mas a turma que não se desgruda, é a turma do caranguejo. Já não há mais espaço na praia, então resolveram ritualizar em toda a cidade, nos restaurantes dos bairros, esquinas e clubes. Das pizzarias às churrascarias, nas quintas, servem caranguejo.
Como dito, o caranguejo é um crustáceo que exige certo esforço e habilidade na hora de saboreá-lo. No entanto, quem o experimenta, não deixa de voltar a provar. O bicho é estranho, duas patolas em forma de pinças e quatro pares de patas articuladas, que devem ser arrancadas, uma a uma - o modo certo de comer é ir arrancando as patas. Deixa-se de lado o casco, que se come por último, retirando-se a parte inferior, separando-o da carapaça e limpando-o, leva-se à boca, extraindo, das partes internas, a carne branca e macia. No final, abre-se o corpo do caranguejo, para comer, com farofa, a gordura que fica depositada no casco. A gordura é levemente amarga. Os que não adquiriram a destreza e não se acham capacitados, comem só a carne retirada e preparada na casquinha, e aí cada cozinheiro cria sua receita. Há diferença entre comer o caranguejo inteiro e a casquinha. No primeiro caso, percebe-se o cuidado de sugar a carne, as pessoas fazem barulho, lambem as patas mais finas, cheias de pêlos, que vêm com cebolinhas, coentros, tomates e cebolas enganchadas. Reviram-se os olhos, lambem-se os dedos...
Ninguém fica limpo, mas as caras são satisfeitas e felizes. A bebida habitual que acompanha a iguaria é a cerveja, da marca preferida do bebedor, ou o refrigerante, para os não bebedores de álcool, e ainda a água de coco. Se a cerveja for ruim, mas o caranguejo bom, tudo bem! Se a cerveja for boa, gelada, e o caranguejo grande, carnudo e gordo, então...! Nesse ritual, tem-se o cuidado de comer apenas os caranguejos machos. Não se comem fêmeas, para não alterar o ciclo de reprodução. Dizem que os caranguejos estão bons nos meses que não têm a letra "A", o que coincide com o período do defeso Noites de quinta-feira, é possível ver e ouvir toda aquela gente em torno das mesas. Entre sons, aromas e sabores, é o encontro dos comensais, dos amigos, da família, dos namorados... com o caranguejo. No domingo, comem caranguejo os que não foram na quinta. Aqui e ali, vê-se um solitário, com um companheiro de dez patas. Afinal, qual o dia!? Na quinta! E a hora? Pode ser agora! Vai quinta pro caranguejo? Claro! Quinta, vou pro caranguejo, vamos? Ver: A alimentação e seus estranhos rituais * Maria Lúcia Barreto Sá é nutricionista, professora, especialista em Nutrição Humana, mestre em Educação e doutoranda em Saúde Pública. Comedora de caranguejo. Participa desse ritual todas as quintas-feiras.
1. Bela descrição Escrito por
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Em 10-10-2007 22:17 Esse texto é capaz de deixar o cearense, conhecedor desse ritual, com água na boca e sentindo o aroma das "caranguejadas" de Fortaleza nas quinta feiras à noite. 2. Elogio Escrito por
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Em 11-10-2007 08:45 Lúcia, adoreiiiiii. Me senti numa barraca de praia a cada narração feita. O do Lawrence tava ótimo. Entre várias coisas que aprendi a novidade foi que o caranguejo é melhor nos meses que não possuem a letra A. Essa foi novidade. Senti falta do valor calórico. um abraço, bj grande, Socorro Pinho 3. Parabéns Escrito por
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Em 11-10-2007 14:46 Maria Lucia, Parabéns pelo texto, nunca vi ninguém falar com tanta propriedade das nossas quintas do caranguejo. Fiquei até com água na boca , tal a riqueza de detalhes. Ainda bem que o dia é hoje e a hora? Bem, pode ser agora! 4. Caranguejo e identidade Escrito por
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Em 12-10-2007 18:39 Adorei a cronica culinaria, o ritual da quinta do caranguejo descrito com belo texto e um olhar sensivel e atento da nutricionista que fecha com chave de outro quando ela assina sua cronica identificando-se ao lado de suas credenciais profissionais, como "comedora de caranguejo e participante dos rituais das quintas". Muito legal! Isabel. 5. Saudades...também do caranguejo! Escrito por
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Em 15-10-2007 17:22 Amiga, que crónica sensacional, quase dá pra sentir o sabor e o cheiro do nosso caranguejo. Pra quem está aqui do outro lado do oceano bate uma saudade da nossa terrinha maravilhosa, desse "ritual" com os amigos,quase chega a doer...Parabéns!!!Um grande beijo. Zaíla 6. Caranguejo e amizade! Escrito por
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Em 15-10-2007 11:20 Minha comadere Lúcia, O texto está irrepreensível!Parabéns! Aderson 7. É isso mesmo! Escrito por
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Em 15-10-2007 16:33 Querida amiga Lúcia É isso mesmo! O seu artigo parece uma fotografia desse ritual. Embora eu seja daquelas que prefere o casquinho à lambuzeira, recomheço que o famoso caranquejo das qinta-feiras é uma unanimidade nesta cidade. Até os poucos que não comem, curtem. Sejam nativos ou não. O bom é a festa! Um beijo Anamaria 8. Com amor! Com caranguejo! Escrito por
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Em 17-10-2007 14:37 Querida MªLúcia, Que bela descrição. Através das palavras foi possível viajar até a orla, pedir, limpar a messa e saborear tal iguaria. Parabéns! Um abraço apertado, Islandia Teixeira Natal/RN 9. Caranguejoterapia!!! Escrito por
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Em 17-10-2007 22:56 Lúcia, Deparei-me com uma descrição de fazer "lamber os beiços e encher a boca d´água"... em qualquer que seja o dia da semana! Quem não é cearense, pode arriscar em tornar-se um adepto, pois esse ritual certamente agradará a todos. E ainda tem o "caldinho", com pimenta "arrochada" não é mesmo? Melhor que isso, só quando uma lua cheia se apresenta em um céu noturno soberanamente cearense, fazendo uma quinta tornar-se sexta... Todo carinho meu, Alice 10. Que orgulho! Escrito por
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Em 26-10-2007 19:27 Sou fortalezense, e confirmo esse ritual e todo esse movimento em torno do caranguejo, às quintas. Orgulho pela cidade, pelo ritual próprio, e por uma nutricionista, que já foi minha professora e hoje colega de profissão, ter escrito este artigo tão bem! Parabéns, lúcia! 11. Você faz a diferença Escrito por
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Em 20-11-2007 18:30 Prezada companheira de profissão e trabalho. Parabéns pela forma como vc descreve este costume nosso de forma tão pitoresca! É de dar água na boca! Vc como sempre, de forma criativa e inteligente faz a diferença, quando apresenta fatos e casos. Um abraço 12. Que saudade!! Escrito por
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Em 10-12-2007 16:15 Lúcia: O texto está ótimo!! Você não sabe a saudade que me deu de uma boa caranquejada! Amiga, faz tempo que não me "atraco" num bom caranguejo... Parabéns e um grande beijo, Daniela 13. Caranguejeiro desde criança Escrito por
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Em 24-05-2008 15:48 Maria Lucia, Outro texto primoroso. Adorei e me lembrei da minha iniciação com caranguejos, por meu avô, ele também caranguejeiro de primeira linha. Dia de caranguejo era dia de festa em casa,todos concentrados, muito barulho e pouca conversa. Agora preciso provar caranguejo em Fortaleza. O estado faz tanta propaganda das lagostas que esquecemos desta iguaria, no meu ver muito mais interessante, por ser democráticamente deliciosa. Abraços, Altamiro Escrever comentário
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