"No que se refere aos alimentos, aquilo que pode parecer uma renúncia pode ser, ao invés disso, uma vantagem."
A análise é de Carlo Petrini,presidente e fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 31-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Se
há uma coisa que sempre invejei dos europeus foi o hábito de fazer piqueniques.
Sai um solzinho e lá estão os espaços públicos e gramados cobertos de toalha,
gente, um pão, um vinho e alguma alegria. Em Porto Alegre também fiquei
impressionada com o número de
piqueniques no Parque da Redenção, cada grupo com sua cuia de chimarrão e a
algazarra da criançada. No Rio de
Janeiro, aniversários infantis comemorados com piqueniques no Jardim Botânico
ou no Parque Lage são comuns e muito mais atrativos às crianças que aqueles grandes
eventos de bufês. E felizmente têm virado moda. Tanto que às vezes há vários
piqueniques acontecendo ao mesmo tempo, precisando até de plaquinhas de
indicação.
Aqui na cidade de São Paulo, a prática de se
fazer piqueniques já foi mais comum. Uma das melhores lembranças da minha
infância são os domingos em que carregávamos polenta, frango com farofa,
frutas, sucos e outros pratos caseiros para comermos ao ar livre no Horto
Florestal ou no Pico do Jaraguá. E encontrávamos mesas e gramados ocupados. Tudo
parecia meio mágico, a família ficava mais unida, as crianças corriam soltas e
podiam comer de um jeito diferente - ajoelhadas em vez de sentadas, por exemplo.
E tinha também as viagens longas de carro, quando parávamos sob alguma árvore
ao longo do trajeto para fazer um lanche. Era mais rápido, mas ainda assim um
piquenique.
Mas minha inveja dos europeus está com dias
contados, afinal brasileiros estão voltando a botar as caras para fora.
Enquanto as crianças se divertiam e aprendiam na horta do
Seu Rui , os adultos foram se divertir e aprender na horta do Seu Osmar, guiados
pelo João, que é filho do Seu Osmar e presidente da associação de produtores do
assentamento.
Ainda no centro comunitário os adultos tiveram a opção de
irem a pé ou de carro. Decidiram por caminhar, 25 minutos para ir e 25 minutos
para voltar, passando por áreas de Cerrado que tinha acabado de queimar, e com
uma umidade relativa do ar de mais ou menos 25%.
Na horta do Seu Osmar tinha gergelim, abacaxi, hortaliças.
Lá também tinha ervilha torta e morangos, muitos morangos. Mas os adultos foram
mais comedidos e comportados, e ao invés de atacar os morangos no pé, fizeram
encomendas. Neste dia o Grupo Vida e Preservação vendeu no mínimo 40 caixinhas
de morango, além de tomates cereja, hortaliças variadas, sem contar o que foi
comprado para preparar o almoço.
O Parque Municipal de Belo Horizonte fica bem no centro da
cidade, duas de suas entradas estão na principal avenida da capital mineira, a
Avenida Afonso Pena. A escolha do Parque para o picnic realizado pelo Convivium Slow
Food Pique Nique em julho de 2010, foi feita através de votação via internet.
Ao invés de ter algumas opções das quais as pessoas teriam que escolher uma, o
processo foi diferente: todo mundo que quis, pode sugerir uma praça ou parque
onde gostaria que o picnic acontecesse. Tivemos muitas sugestões boas: Praça de
Santa Tereza, Praça JK, Parque das Mangabeiras, Parque do Bairro Santo Agostinho, Praça
Raul Soares, Horto Florestal,Parque da Lagoa do Nado. Mas o
campeão disparado foi mesmo o Parque Municipal...
O
Slow Food Cerrado cresceu muito em pouco tempo, e as pessoas precisavam se
conhecer, conviver. A proposta inicial era um encontro, mas a receita foi sendo
enriquecida, cada um colocando um ingrediente, e acabamos realizando um grande
evento. Tudo foi combinado de forma participativa, usando o grupo de discussão
do convivium.
Realizamos
o encontro no dia 07 de agosto no Assentamento Colônia I porque é a casa do Grupo Vida e
Preservação (agricultores agroecológicos) e do Grupo Sabor do Cerrado (grupo de
mulheres cozinheiras), já conhecidos e parceiros do Slow Food Cerrado, e também
integrantes da Rede Terra Madre Brasil . Contamos com um apoio fundamental para a realização do encontro: Central do Cerrado,
principalmente no fornecimento de produtos da sociobiodiversidade de
outras comunidades do alimento, e na parte da logística geral.
Quando
começaram as confirmações, percebemos que seriam muitas crianças e que
precisávamos de uma atividade para elas. Pensando nos talentos que temos no
grupo, e no ambiente que encontraríamos no assentamento (hortas agroecológicas,
cultivo de morangos) não foi difícil encontrar quem coordenasse esta atividade
e pensasse em um formato simples e prazeroso. Alessandra, que já vem
desenvolvendo um trabalho com educação do gosto para crianças, e Leninha, que é
professora e está sempre na cozinha, logo toparam o desafio. A atividade
consistiu em uma visita guiada em uma horta, convivência e aprendizado com um
agricultor, colheita de verduras e preparo de uma salada.
No
centro comunitário do Colônia I, as crianças se separaram dos pais, e juntos
com Alessandra e Leninha rumaram
para a casa do Seu Rui, numa caminhada de 5 minutos. Lá foram carinhosamente recebidas por ele, e começou a
visita. Nosso grupo de crianças já tinham experiência, e teve até troca de
receitas: "também dá para por as folhas da beterraba na sopa", afirmou Caio.
Além
das beterrabas, vimos as alfaces, as cenouras, os brócolis. Em um momento Seu
Rui lançou um desafio (para as coordenadoras também) e somente o João, o mais
novo da turma, acertou: "é ervilha torta, tem na horta da minha escola".
A
maior surpresa para todos foi quando Seu Rui disse: "agora vou mostrar uma
coisa que ninguém vai saber o que é". De um "matinho" rasteiro que puxou da
terra saíram: "AMENDOINS!!!!". Desta vez foi uma surpresa geral, que se seguiu
de uma degustação, ali mesmo, de amendoins graúdos e deliciosos. Segundo o
Caio, "estes amendoins são a coisa mais gostosa do mundo!!!".
Vimos
as ramas de mandioca, já colhidas, e o feijão, que só ficou na horta o que
estava sendo separado para ser semente. Um pouco mais para lá estava a couve
flor, mas a delícia mesmo foi chegar nos moranguinhos, que estavam mais para
morangões. Seu Rui explicou o porque do plástico, mostrou como se colhe e deu o
sinal verde para a turma avançar. Aí virou a Festa do Morango! Em cada fileira
uma variedade, e deu para sentir a diferença. Caio falou para quem quisesse
ouvir: "Esta horta é tudo de bom, tem tudo que eu gosto!".
Passamos
ainda pelas couves - duas variedades com folhas diferentes, pela rúcula, alface
roxa, tomatinhos cereja, tomates. Seu Rui contou sobre o problema da água e
mostrou a bomba e o reservatório. Foi a hora de matar a sede.
A
tarefa era fazer uma salada, então cada uma das crianças escolheu algo para
colher. De volta no centro comunitário, hora de lavar as mãos, higienizar e
preparar a salada. Ao final, todos
acharam melhor levar a salada para o almoço com os adultos. Será que é porque
estavam com a barriga cheia de morangos?
As
imagens abaixo mostram em seqüência toda a atividade.
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Enquanto
isso, os adultos também tiveram sua dose de formação e diversão, conhecendo o Cerrado
e a horta do Seu Osmar. Depois veio o almoço, também teve oficina na cozinha
com o Grupo Sabor do Cerrado....mas estas histórias ficam para mais tarde.