Carlo Petrini, fundador do Slow Food, esteve no Brasil em março de 2010
para o encontro Terra Madre Brasil, realizado em Brasília. Para ele,
País tem tesouros gastronômicos esperando para ser descobertos.
O tempo do mero consumo acabou, e os que exercerem seu poder de escolha, optando por alimentos bons, limpos e justos, não serão só consumidores, mas coprodutores. É o que defende o italiano Carlo Petrini, fundador e diretor do Slow Food.
"Isso não significa que todos devam mudar para o campo e cultivar a própria comida, mas o link original com a fonte de nossa alimentação pode e deve ser restabelecido", diz Petrini . "Basta nos educarmos, conhecendo os produtos, os produtores e osmétodos para nos alimentarmos melhor e poluirmos menos."
Leia, a seguir, trechos da entrevista concedida ao Paladar:
Considerado pelo jornal The
Guardian uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta, o fundador do movimento Slow Food esteve no Brasil para disseminar a importância da agricultura sustentável e das culturas locais - acredite ou não, isso pode até salvar o planeta.
Calma. É isso o que vem pedir Carlo Petrini. Calma para respirar, para fazer escolhas conscientes e para conhecer o lugar e as tradições do lugar onde você mora. O fundador da Slow Food Foundation, com sede na cidade italiana de Bra e presente em 132 países, não quer apenas que as pessoas comam devagar. Ele quer mandar uma mensagem contra o consumo massificado e a agricultura industrializada. Ele defende a comida da vovó, a horta do vizinho, o cultivo e a produção de produtos genuínos e a valorização desses produtos nos mercados regionais. Petrini não se vira contra o novo, mas contra o que é artificial. "Ferran Adrià é um gênio, um Picasso", ele diz. Mas nem todo mundo pode ser um Picasso.
Ele é contra plantações de espécies híbridas resistentes a pragas, que quase extinguiram o pimentão quadrado d'Asti da região do baixo Piemonte (leia mais sobre alimentos que correm risco de extinção). Carnuda, perfumada e saborosa, essa variedade de pimentão foi trocada por pimentões holandeses sem gosto, mais rentáveis e baratos, como você pode ver na animação no meio desta reportagem. É contra isso que ele luta.
Em sua visão, a alimentação contemporânea agroindustrial é a grande responsável pela destruição do planeta. Somos em sete bilhões, produzimos comida para 12 bilhões e ainda um bilhão passa fome. "Mais da metade do que produzimos é jogado no lixo. No sistema consumista, só conta o preço, e não o cuidado, a produção e o modo de conceber os alimentos", afirma. Você acha tudo isso uma bobagem? Petrini foi indicado pelo jornal inglês The Guardian, em 2008, como uma das 50 pessoas que poderiam salvar o mundo.
Petrini defende que a gastronomia é uma ciência complexa. Nas
escola e faculdades onde ela é ensinada, os alunos deveriam aprender
física, agricultura, antropologia, história, economia e química. Dessa
maneira, sairiam de lá gastrônomos competentes e comprometidos com
uma comida "boa, limpa e justa" – os três pilares da Slow Food.
Construir uma horta nas escolas e universidades é o primeiro passo (clique
e saiba como). "Tirem 10 vagas do estacionamento, quebrem o
asfalto, coloquem terra e um pouco de estrume, plantem tomates, feijões,
verduras. Se alguém reclamar que não tem vaga, ganha um tomate!", diz
Petrini, bem humorado. Para ele, o Slow Food tem que ser divertido.
Carlo Petrini veio ao Brasil na semana passada para participar do Terra Madre,
evento da Slow Food Foundation, e lançar seu livro Slow Food –
princípios da nova gastronomia, publicado em 2005, mas só
traduzido para o português agora. Confira a entrevista abaixo.