Ir para: Menu | Conteúdo
Slow Food Brasil Slow Food Brasil via RSS Slow Food Brasil no Twitter Slow Food Brasil no Facebook
Genius Loci

Com o sabor da estação

Imprimir Envie este texto por Email
por Elisa Corrêa   

Minhas memórias de verão têm cheiro doce de melancia. Lembro bem das tardes quentes das férias de janeiro, quando sentava na escada da casa de minha avó, os pés descalços, o corpo inclinado pra frente, um pedaço grande de melancia no espaço entre os joelhos, as mãos meladas e os pingos de suco atraindo as formigas no chão. Não sei se hoje alguém lembra de uma estação do ano pelo perfume ou pelo gosto de uma fruta, mas sei que é possível encontrar melancias nos supermercados e nos restaurantes já em agosto. Porque melancias não precisam mais esperar o verão para serem colhidas.

 

Os alimentos viajam de um lado a outro e contam com as novas tecnologias do campo e com a melhoria genética para poderem estar presentes o ano todo nas gôndolas dos supermercados. As feiras e mercados, antes abastecidos por produtos frescos e locais, foram preteridos às facilidades dos super e hipermercados que oferecem alimentos de todos os cantos do mundo, durante todos os meses do ano. Nos afastamos da natureza, trocamos os quintais de casa pelas janelas e varandas dos apartamentos e quase não temos mais tempo para andar pelas ruas, olhando para cima, admirando um pé carregado de goiaba ou um ipê em flor. Com tudo isso, a sazonalidade perdeu a importância. Nosso cardápio não depende mais das safras e entressafras. Na hora das compras não nos guiamos mais pela oferta do campo e sim pelos nossos desejos.

 

Comentários (4) | Envie este texto por Email

Leia mais...
 

A alma dos mercados

Imprimir Envie este texto por Email
por Elisa Corrêa   

O camarão com casca, o descascado e o miudinho. A anchova inteira ou cortada em filé. A farinha de mandioca em sacas: grossa, fina, nem grossa nem fina. As frutas em caixas, exibidas, umas por cima das outras. As carnes penduradas, as réstias de alho e de cebola atrapalhando a passagem, as frutas secas em vidros gordos com tampa prateada. O cheiro do peixe cru misturado ao do pastel que está saindo mais pra frente e, lá do fundo, ainda dá para sentir o perfume do café recém servido ao freguês. E gente e balanças e bigodes e conversas atravessadas e mais gente com sacolas penduradas. 

Sacas de feijão no Empório Mania da IlhaAh, os mercados! Públicos, centrais, mercados de rua e até os mercadinhos de esquina. Lugares onde a alma local aparece sem vergonha e sem disfarces. Onde se descobre se é época de tainha ou de melão. Onde se conhece quais são os produtos do território, o que vai no prato dos moradores da cidade e qual o sotaque e o humor do povo. Só nos mercados é possível se deixar levar pela beleza de baldes de azeitonas e, por impulso, voltar pra casa com um quilo delas, roxas, verdes, carnudas, temperadas, recheadas com pimentão. Só nos mercados é possível mergulhar a mão numa saca cheia de feijão e sentir os grãos gelados deslizarem na pele. Preto, branco, vermelho, feijão fradinho. É no mercado que se pode mordê-los no canto da boca para saber se são da última safra.

Comentários (12) | Envie este texto por Email

Leia mais...
 

O espírito do lugar

Imprimir Envie este texto por Email
por Elisa Corrêa   

Pode ser que se perceba ao dobrar a esquina e avistar ao longe uma cortina escapando da janela, ou então ao ouvir o tocar de um sino que preenche a rua vazia. Pode ser que se perceba ao caminhar por uma calçada estreita feita de pedras irregulares, ao escutar a mistura de conversas entre as barracas de uma feira, ao ser hipnotizado pelos perfumes que saem da porta entreaberta de uma cozinha alheia.

Momentos em que se reconhece a presença forte da memória coletiva, a soma dos anos que passaram e das histórias que ficaram, o acúmulo de saberes e experiências. Algo que não tem forma nem pode ser capturado por uma fotografia: a alma, o talento, a vocação de cada território. O genius loci, essa expressão latina que quer dizer "o espírito do lugar".

O conceito de território está na base da filosofia do Slow Food: a valorização das culturas locais é uma resposta à homologação causada pelo "modelo fast food". E se os alimentos são vistos como um produto do território, como o resultado da tradição, da cultura e da identidade local, está na hora de prestar mais atenção no genius loci. Não só no espírito do lugar onde moramos ou visitamos, mas também no "espírito" daquilo que comemos.

Comentários (10) | Envie este texto por Email

Leia mais...
 
© 2012 Slow Food Brasil. Todos os direitos reservados aos autores das fotos e textos.
Não é permitido reproduzir o conteúdo deste site sem citar a fonte, link e o autor.
Design e desenvolvimento: DoDesign-s