por Patrícia dos Santos Pinheiro e Simone Bochi Dorneles
Pensando
no cinema enquanto campo etnográfico, inserido em um contexto histórico e
cultural, alguns dos elementos presentes no filme "Estômago", de Marcos Jorge
(2008), são importantes para tecer reflexões sobre valores culturais,
conflitos, relações de poder, enfim, interações sociais que podem ir muito além
da ficção (ROCHA, 2009). A narrativa traz uma relação estreita entre culinária
e jogos de poder, expondo uma trama de relações. Para o personagem Raimundo
Nonato, a comida é caminho de ascensão social.
Buscando mostrar, através do cinema, contextos que trazem à
tona um cotidiano usualmente invisibilizado, neste filme são apresentadas
situações conectadas com uma realidade que se distancia dos contos de fadas
maniqueístas, de finais felizes.
por Lidiane Fernandes da Luz e Veridiana Soares Ribeiro
Tomar a produção
fílmica como campo etnográfico pode disparar uma infinidade de questões e
temáticas que falam do cotidiano das pessoas, da vida social, da manifestação
das diversas culturas presentes no mundo em que vivemos.
Como água para
chocolate, filme mexicano do diretor Alfonso Arau, produzido no ano de 1992, é
um filme que convida à reflexão. A partir da comida e da relação que os
personagens estabelecem com a mesma, é possível perceber e conhecer os modos de
vida do lugar em que se desenvolve a narrativa. Quem nos conta a história é a
sobrinha-bisneta de Tita (personagem principal do filme), através de um livro
de receitas que é passado através das gerações de mulheres da família.
Bem, ontem fiz um pouco de
iogurte caseiro. E ele estava com uma cara tão convidativa que resolvi usá-lo
no prato do jantar de hoje. Coloquei manteiga na frigideira e despejei o
iogurte. Deixei refogar bem e adicionei o sal, pouco. Então, coloquei uma berinjela
refogada, na verdade um antepasto de berinjela em que ela refogou no alho, cebola,
pimentão vermelho e pimenta picante. Depois coloquei um pouco de corações de
alcachofra picados. Cozinhou levemente e então despejei a massa que cozinhei.
Para terminar, queijo parmesão ralado na hora. Não dá para descrever. O iogurte
deu um toque macio e azedinho, levemente azedinho, ao prato, melhor do que
seria um creme de leite. Leve, muito leve. Quase primaveril. Mas perfeito para
uma taça de vinho carmenère.
Você vai dizer: de novo massa?
Pois é. Mas o que você combinaria com um molho desses? Talvez um filé com purê
de batatas, ou podia ter sido um risoni - aquele macarrão com cara de arroz - o
que não deixava de ser massa também. Um arroz integral só cozido na água podia
ter ficado bem temperado com esse molho. O problema é o mesmo: nunca me lembro
de trazer ingredientes para casa. E também não como carnes.
Para
além do bacalhau com batatas e do Manuel da padaria, que muitas vezes povoam o
imaginário de nós, brasileiros, Portugal é uma festa de sabores que compõe,
juntamente com ritmos, sotaques, tradições e identidades muito diversas, a
mágica desta adorável terrinha. Um
país pequeno em extensão, mas que abriga uma notável diversidade cultural, com
pessoas e grupos que criam distintos modos de viver, fazer, pensar e responder à
natureza que os circunda.
No
extremo norte do país, dividindo a fronteira com a Espanha, situa-se a região
de Trás-os-Montes, montes esses que separam o litoral português do interior do
país e da Península Ibérica. Morando por alguns meses nessas bandas, foi-me
inevitável traçar comparações com os pampas gaúchos do sul do Brasil, de onde
sou oriundo.
Tomando
como base a divisão administrativa por regiões de Moçambique (ver mapa) - país situado
na costa oriental da África -, temos que na zona sul (Maputo, Gaza e Inhambane)
a "eleição alimentar" dirige-se ao arroz, na zona central (Manica, Sofala, Tete
e Zambézia) ao milho e na zona norte (Nampula, Niassa e Cabo-Delgado) à
mandioca. Especificamente no que diz respeito à zona norte, a produção de
mandioca é massificada entre as famílias e comunidades rurais. Ano após ano, as
famílias reservam grandes extensões de terra a essa planta. É comum, em
qualquer pedaço de terra agricultável, encontrar-se uma plantação de mandioca,
planta mais produzida na região.
A
importância da mandioca no norte de Moçambique é evidenciada pela produção em
monocultivo, sendo associada ao sustento dos membros e à honra do chefe da família.
Tal fato estabelece diferença com o observado por Woortmann e Woortmann (1997),
em estudo realizado entre camponeses do nordeste brasileiro, quando indicaram que
os agricultores praticavam consorciamento em função do tempo de cada planta. A
planta do ciclo curto era colocada na mesma parcela com a de ciclo longo, para
permitir colheitas separadas e bom aproveitamento da terra. Mas para as famílias
observadas de Nampula, a planta importante é colocada em uma parcela separada,
para que receba dedicação exclusiva, já que, nesse caso, está em questão a
honra do chefe da família.