Tem que ter canela e noz-moscada, senão não é cuca!
A caloria pro pão puro de milho é como a da rosca de polvilho, tem que ser bem alta. Agora, pra cuca tem que cuidar: coloca uma palha de milho, se queimar ta muito quente... passa folha de bananeira ou uma vassoura molhada pra tirar caloria, senão vai queimar as cucas!
Eram três doceiras me relatando as receitas de cuca, pão de milho, rosquete e rosca de polvilho. Se as outras que eu havia convidado também tivessem vindo, não sei dizer qual seria o resultado de nossa reunião. Discutir receitas entre agricultoras exige muita atenção! Principalmente de quem não é tão familiarizado com esse cotidiano de roça, cozinha e forno.
"Duas pra cinco", "tira quatro" - a discussão das receitas seguia, agora tratando da quantidade de claras e gemas nas preparações, que, segundo elas, é muito diferente caso usem ovos de casa ou não. Cada doceira demonstrava seu próprio jeito! Talvez por isso pareciam tão cuidadosas com a forma como discutiam suas receitas (sabe como é...). Melhor para mim, que intermediava a reunião e tomava notas, para preencher o formulário que poderia proporcionar que participassem do Terra Madre Brasil - Encontro Nacional de Comunidades do Alimento, que aconteceria em Brasília, dentro de alguns meses.
A biodiversidade é, comumente,
associada a animais e plantas silvestres. Na sociedade em geral, assim como
entre os ambientalistas, há menos consciência e militância em favor da
diversidade biológica na agricultura - a agrobiodiversidade - do que da
biodiversidade silvestre. Pode-se afirmar que, historicamente, o componente
cultivado da biodiversidade tem sido negligenciado pelos ambientalistas e pelas
políticas e órgãos públicos. Também os juristas têm se ocupado muito pouco do
tratamento jurídico da biodiversidade agrícola, mesmo aqueles que se dedicam ao
direito ambiental ou socioambiental.
Proteger variedades de
mandioca, milho, arroz, feijão, preservar nossos ecossistemas agrícolas, é tão
importante quanto as iniciativas nesse sentido voltadas à floresta amazônica ou
à mata atlântica, ao mico-leão-dourado e ao lobo-guará, entre outros. Muitas
variedades e espécies agrícolas já se extinguiram e outras correm risco de
extinção. Isso em um contexto em que nossa alimentação baseia-se em um número
cada vez mais reduzido de espécies, o que resulta em consequências negativas para
o meio ambiente e para nossa saúde, diretamente associada à qualidade dos
alimentos que comemos.
O grupo indígena denominado Mbyá-Guarani possui suas aldeias nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Tradicionalmente, este grupo indígena obtém seus alimentos a partir da caça, da pesca, da coleta e da horticultura. Os homens caçam, pescam, coletam e abrem clareiras na mata, onde são feitas as roças. As mulheres semeiam e colhem os produtos da roça, processam, estocam e preparam todos os alimentos consumidos pelos Mbyá-Guarani. Homens e mulheres, tradicionalmente, colaboram nas tarefas que constituem o sistema culinário Mbyá-Guarani.
Na atualidade, devido à pouca terra demarcada para o grupo e suas más condições ambientais, as tarefas do sistema culinário Mbyá-Guarani sofreram algumas alterações. Os homens, impedidos - pela escassez de rios e matas - de caçar, coletar e pescar, passam a contribuir mais no cultivo das roças. Com isso, homens e mulheres vêm dedicando-se a outras atividades, como a produção e comércio de artesanato, para obter recursos monetários e comprar alimentos em substituição aos que antes eram obtidos no meio ambiente. Mas, mesmo diante do novo quadro, homens e mulheres continuam dividindo as tarefas que proporcionam seus alimentos, com destaque para as mulheres, que são responsáveis por seu preparo.
Podemos, então, afirmar que mulheres e homens são responsáveis pela sobrevivência física dos membros do grupo, no que tange à obtenção de nutrientes. Contudo, o ato de comer vai muito além do que a simples - porém necessária - ingestão de nutrientes. A comida simboliza. Ela, além dos nossos corpos, alimenta também nossos imaginários. Ao comer, incorporamos tanto aspectos nutricionais quanto simbólicos dos alimentos que ingerimos (FISCHLER, 1995). E, no que se refere aos Mbyá-Guarani, é no campo do simbólico que mais se destaca a participação das mulheres nas tarefas de seu sistema culinário.
O sul de Moçambique, com uma população
total de cerca de 4 milhões de habitantes, distribuída em três províncias
(Maputo, Gaza e Inhambane), é uma região onde as pessoas têm mais ou menos os
mesmos hábitos alimentares. Esta similaridade está
provavelmente ligada ao fato de que antes da fixação portuguesa em Moçambique,
durante o século XV, nesta região formou-se o segundo maior império da África,
o Império de Gaza. Este império foi constituído pelos ngunis (um grupo
populacional bantu do sul da África), que, como resultado de um conflito civil,
foram empurrados para aquela região. Os ngunis, que eram guerreiros,
ocuparam aquela região por volta de 1820, dominando, para isso, os povos que
ali estavam instalados (os tsongas, vandaus, e bitongas).(1)
A principal atividade econômica dos
bantus era a agricultura de sequeiro e a criação de animais voltados para a
subsistência. No âmbito das diversas estratégias de sobrevivência, que
constituem os modos de vida da população, o uso dos recursos naturais não
estava apenas limitado ao cultivo da terra, mas incluía também a caça e a coleta
de produtos florestais e de plantas medicinais, entre outras atividades. As
principais culturas ligadas à alimentação bantu incluíam os cereais (milho,
sorgo, milheto, arroz); as leguminosas (diversos tipos de feijões e amendoim);
a batata doce, o nhame, a mandioca e uma variedade de vegetais (hortaliças). No
entanto, desde a chegada dos portugueses, no século XV, o País vem sofrendo
profundas transformações políticas, econômicas e sociais, que afetam os sistemas
alimentares.
Comida, Mercado Público de Belo Horizonte e rituais alimentares
Quem já não ouviu
falar que um dos primeiros lugares que um visitante, turista ou forasteiro deve
conhecer, ao chegar em uma cidade, é o Mercado Público?
Lugar de encontro,
de expressão de diversidade, do cotidiano, das diferenças, das
particularidades; geralmente os Mercados Públicos das médias e grandes cidades
são vistos e lembrados como uma porção de espaço significante da cultura local.
A variedade de trocas, de consumo e de amplas possibilidades de comercialização
são características dos Mercados, assim como a diversidade de frequentadores.
De diferentes origens sociais, pessoas circulam, compram, vendem e trabalham em
Mercados, configurando um espaço de vivência e de manifestação da materialidade
da vida social.
Mercados Públicos,
de maneira geral, podem ser vistos como locais de resolução de demandas de
consumo. Na prática, para além das relações entre a oferta e a procura, o Mercado
representa a constituição de um espaço que é também simbólico, gera identidade,
por ser lugar de vivência, de compra e venda, mas também de sentimentos e
valores.