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A uruçu-de-chão é uma abelha sem ferrão brasileira, que se caracteriza por nidificar no solo. A espécie tem registro geográfico nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. No Nordeste a espécie é encontrada na Chapada do Araripe, uma Área de Proteção Ambiental (APA) onde a uruçu-de-chão encontra o lugar ideal para nidificar, ou seja, construir seu ninho (colônia), pois, faz o ninho no chão, utilizando os buracos das formigas saúvas.

A uruçu-de-chão pode nidificar a profundidades que variam de 40 cm a 4,80 m e o volume depende das características do cupinzeiro ou formigueiro abandonado ou, ainda, da falha geológica natural que as abelhas encontrarem.

Seu nome científico Melipona quinquefasciata faz referência à presença de 5 listras em seu abdome. A espécie mede cerca de 10,5 mm de comprimento e possui cabeça e tórax pretos e asas amareladas. É uma abelha, dócil, resistente e importante para a polinização da flora local.
Associada a essa espécie de abelha a região tem um cipó, chamado de croapé, também conhecido por cipó-uva, por suas flores se assemelharem a um cacho de uvas. Esta planta tem uma florada excepcional entre os meses de setembro e dezembro, no auge da seca, verão no semiárido nordestino. A uruçu-de-chão é ótima polinizadora, em especial do cambuí, fruta nativa da região muita apreciada e pertencente a família das mirtáceas, cuja flor é rica em pólen, um alimento essencial para a abelha no verão.

O mel produzido por esta abelha é único em seu sabor, densidade, qualidade e aroma, com um toque peculiar e sabor característico, que varia de acordo com a florada local. Muito utilizado na medicina popular para resfriados e chás caseiros.


Abelha rainha ao centro, com abdômen maior. Foto: Vilmar Lermer

A área histórica de produção é a região do Araripe pernambucano e cearense, conhecida como Serra dos Paus Dóias, na cidade de Exu, PE e distrito de Dom Leme, em Santana do Cariri, CE. Área de ocorrência da espécie é em torno de 23 km², em altitude que varia entre 700 e 900 metros.

A região é de formação do período do Cretáceo, de solo sedimentar, com grande profundidade e bem drenado. Com clima ameno à noite e picos de calor no verão durante o dia e chuvas que variam em torno de 1035 mm em média por ano. Esse clima e as estações são bem definidos durante o ano, no primeiro semestre frio e úmido e no segundo semestre quente e seco.

A espécie ocorre em outra área da Chapada do Araripe, na divisa do estado de Pernambuco com o estado do Ceará, entre os municípios de Moreilândia-PE e Crato-CE. Ocasionalmente a uruçu-de-chão é encontrada em áreas que delimitam com as de sua ocorrência natural. Necessita-se, porém, de mais estudos sobre a espécie e seus potenciais.

Atualmente a espécie é criada em panelas de barro (cerâmica), de diversos tamanhos e formatos. O que facilita o manejo e a extração do mel, pólen, cera, esses dois últimos produtos menos utilizados pela população local.

mel-terramadre3-potes-vilmar.jpgPanela de cerâmica utilizada na criação de uruçú-de-chão exposto no Terra Madre 2016
(Foto: Ana Cecilia Bruni)

A iniciativa da criação racional das abelhas iniciou-se independentemente por famílias em diferentes municípios e comunidades dos estados de Pernambuco e do Ceará, na Chapada do Araripe. Região que, na verdade, é uma sequência contínua de terras com essa divisão geopolítica, na divisa entre estados e municípios. Essas famílias, ao longo do tempo, passaram a ter nesta abelha uma fonte de alimento e renda fixa todos os anos, em especial no verão, época mais difícil de produzir outros alimentos por causa da seca. Antes as colônias de uruçu-de-chão eram muito exploradas pelos meleiros da região: as abelhas são sensíveis ao manejo e abandonam a colônia após a retirada do mel. A grande maioria dos integrantes da colônia morria, pois ficava exposta ao sol e aos predadores.

Ao longo do tempo as pessoas começaram a preparar locais dentro do solo (arranchavam nas barreiras que elas mesmas escavavam e colocavam o ninho lá). Aos poucos isso foi sendo feito para salvar ninhos. Nos últimos 20 anos a espécie vem sendo criada por muitas famílias de diversas formas, desde panelas de barro simples, potes ou recipientes cerâmicos especialmente confeccionados localmente para sua criação. A comunidade é composta por 450 pessoas; envolvidos com a criação da uruçu-de-chão são em torno de 30 famílias e 150 pessoas.

A extração do mel no modo tradicional é retirar os potes de mel da colônia no solo e espremer esses potes com as mãos, deixando o mel sujo: como o ninho fica no solo, tem muita terra e poeira ao redor, ficando muito pó de terra ou argila em suspensão dentro mel. Fato que, segundo a tradição local, dá certa garantia de que o mel é puro, pois, foi coletado na fonte e não tem misturas ('batizado') com mel de Apis melífera, abelhas africanizadas, o que muitas vezes tira a credibilidade da pureza do mel dessa espécie.

O mel é comercializado entre as famílias na própria comunidade, e com atravessadores, na feira livre e agroecológica, no varejo, em restaurantes, bares, supermercados e outros. O valor do mel depende muito de quem o maneja e colhe. Seu preço do mínimo de R$ 15,00 reais o litro, podendo chegar a mais de R$ 100,00 o litro.

Por sua alta procura e fonte de renda no período da seca, ocorre uma grande busca pelas colônias existentes na natureza pelos meleiros da comunidade e região. Com esta atividade ocorre extração de baixo aproveitamento, uma vez que só se retira o mel, descartando o ninho e a cera e deixando as abelhas à própria sorte. Outros fatores são a mecanização das áreas cultivadas, com uso de tratores para aração e plantios, além da criação extensiva de animais, em especial os bovinos, fato que vem diminuindo os ninhos e colônias na região, pelo pisoteio/compactação e soterramento dos canais que ligam a entrada ao ninho. O uso de agrotóxicos no controle da formiga saúva também prejudica sua multiplicação natural. O ataque de predadores naturais também ocorre, a exemplo de forídeos e lagartixas, entre outros.

O mel da abelha uruçu-de-chão, é consumido de várias formas e em diversos momentos. É um alimento muito apreciado puro ou misturado à farinha de mandioca como energético, consumido tanto por adultos como pelas crianças. É utilizado no tratamento de ferimentos, dor de ouvido, como complemento alimentar no controle de resfriados e gripes, entre outros.

O produto é ligado a Comunidade da Serra dos Paus Dóias, zona rural do município de Exu-PE, localizado na Chapada do Araripe, nas divisa dos estados de Pernambuco e Ceará. Com produção variando de acordo com o ciclo das chuvas, em média temos a produção de um a três litros por colônia de abelha ao ano. A produção total média é de 500 litros de mel por ano. Parte disso vem das criações das famílias, outra parte é da extração diretamente das colônias do ambiente.

Nos últimos 8 anos a AGRODÓIA - Associação dos/as Agricultores/as Familiares da Serra dos Paus Dóias - tem provocado as famílias para a organização da produção, conservação e multiplicação da uruçu-de-chão. Também chama atenção pros cuidados nas formas de colheita, envasamento, rotulagem e comercialização do mel, presente nos eventos da agricultura familiar da região chegando, em alguns momentos, aos eventos nacionais e internacionais.

Referências:

CARVALHO, Francisco das Chagas et al. Iniciação à Criação de Uruçu de Chão. 1º edição. Gráfica Fotolaser. Recife-PE, 2012.

FREITAS, B. M.; ALVES, J. E.; MESQUITA, F. L. A.; ARAÚJO, Z. B. Adaptação de uruçu do chão (Melipona quinquefasciata) em colméias de madeira ao nível do solo. In: V Encontro sobre Abelhas. Anais. Ribeirão Preto, SP. 2002. p. 289.

ALVES, J.E.; FREITAS, B.M.; LIMA-VERDE, L.W. & RIBEIRO, M.F. 2006. A uruçu-do-chão (Melipona quinquefasciata) no Nordeste: extrativismo de mel e esforços para a preservação da espécie. Mensagem Doce, n. 85 (http://apacame.org.br/mesangemdoce/85/artigo2.htm).

http://ordenhymenoptera.blogspot.com.br/2012/04/melipona-quinquefasciata-urucu-do-chao.html

Ficha submetida por Vilmar Lermer.
Revisão e pesquisa por Revecca Cazenave-Tapie e Ligia Meneguello
Este produto compõe o projeto:

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